SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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segunda-feira, 25 de julho de 2016

3º MOMENTO MODERNISTA - A GERAÇÃO DE 1945: POESIA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

1.CONTEXTO 
    HISTÓRICO
No ano de 1945, com o fim da ditadura de Getúlio Vargas, o início da redemocratização brasileira, convocam-se eleições gerais, os candidatos se apresentam, os partidos sã legalizados, sem exceção. Logo depois, inicia-se um novo tempo de perseguições políticas, ilegalidades, exílios.
A literatura brasileira também passa por profundas alterações, surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e, outras, um retrocesso. O tempo, excelente crítico literário, encarrega-se da seleção.
2.CARACTERÍSTICAS
A prosa, tanto nos romances como nos contos, segue o caminho dos autores da década de 30, buscando uma literatura intimista, de sondagem psicológica, introspectiva (Clarice Lispector). Ao mesmo tempo, o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil Central.
Na poesia, ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às conquistas e inovações modernistas de 1922. Assim é que, negando a liberdade formal, as ironias, as sátiras e outras “brincadeiras” modernistas, os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais equilibrada e séria, distante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A preocupação primordial
É o restabelecimento da forma artística e bela, os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolistas.
No final dos anos 40, revela-se um dos mais importantes poetas da nossa literatura, não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências modernistas anteriores: João Cabral de Melo Neto. Além dele pode-se citar Ferreira Gullar
         POESIA
JOÃO CABRAL DE
    MELO NETO

João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife (PE), em 1920. Ingressou na carreira diplomática em 1954, servindo na Espanha, França, Inglaterra, Senegal e Paraguai.
Estreou com Pedra do Sono, em 1942, seguido par O Engenheiro. Em 1969, entrou para a Academia Brasileira de Letras, eleito por unanimidade.
A poesia de João Cabral caracteriza-se pela objetividade, pois procura relatar a realidade e O dia a dia. Entretanto ela tem nuances subjetivas - ao apreender a realidade para tentar transformá-la - e, em alguns casos, toques surrealistas.
Melo Neto tem uma grande preocupação com a forma de seus poemas e com a escolha do vocabulário: a palavra deve ter um poder expressivo tão grande que, com poucas delas, se diga muito.
Seus temas: o Nordeste e seus retirantes, suas tradições, seu folclore, seus engenhos; Pernambuco, seu estado, Recife, sua cidade, o rio Capibaribe; as paisagens da Espanha, que ele compara com as paisagens nordestinas.
Versificou ainda sobre a arte de vários pintores, dentre eles a do espanhol Miró e a do pernambucano Vicente do Rego Monteiro; sobre alguns escritores (Drummond e Graciliano Ramos, por exemplo) e sobre alguns craques do futebol brasileiro.
Outras obras: Psicologia da composição, Fábula de Anfion, Antíode, O cão sem plumas, O rio, Duas águas (contém Morte e vida severina, Paisagens com figuras, Uma faca só lâmina), Quaderna, Dois parlamentos, Terceira feira, A educação pela pedra, Poesias completas, Museu de tudo, Sevilha andando.
Sua obra mais conhecida é Morte e Vida Severina (Auto de Natal pernambucano), que já foi tema de minissérie da TV Globo:
Morte e Vida Severina é um belíssimo exemplo de peça literária perfeita, em que forma, conteúdo e linguagem compõem um co junto harmonioso e indissociável. Ao abordar a injusta distribuição de riquezas que caracteriza secularmente a nossa sociedade (com particular ênfase para a questão agrária), João Cabral revira o nosso passado colonial com suas estruturas de herança medieval (concentração da riqueza, grandes propriedades, patriarcalismo, teocentrismo, etc.). Significativa é a caracterização do coronel (como latifundiário, ou remanescente do feudalismo); o "por causa de um coronel/que se chamou Zacarias / e que foi o mais antigo / senhor desta sesmaria ". Temos, assim, uma remissão às origens dos nossos problemas agrários e, mais remotamente, à lusitana lei das sesmarias de D. Fernando, em fins da Idade Média. Por isso mesmo, João Cabral segue o modelo medieval de poesia: constrói um auto (poema narrativo para ser representado, de tradição medieval, forte religiosidade e linguagem popular), com versos curtos e ritmados, que lembra a literatura de cordel.
O auto apresenta várias passagens ou cenas, etapas na longa jornada do retirante Severino, que sai em busca da vida, caminhando em direção ao mar e atravessando as regiões típicas dos estados nordestinos: o Sertão, o Agreste, a Zona da Mata, a cidade litorânea.

             JOÃO  CABRAL  DE  MELO  NETO: A  DEPURAÇÃO  DA  FORMA
    Apresenta em toda a sua obra uma preocupação constante com a estética, com a arquitetura da poesia, construindo palavra sobre palavra, como o engenheiro coloca pedra sobre pedra. É um "poeta-engenheiro, "que constrói uma poesia calculada, racional, num evidente combate ao sentimentalismo choroso. Para isso, utiliza-se de uma linguagem enxuta, concisa, elíptica, que constitui o próprio falar do sertanejo.
    A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e, em alguns casos, pela tendência ao surrealismo. No nível temático, podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações, apresentadas a seguir ..
. O Nordeste com sua gente: os retirantes, suas tradições, seu fol- clore, a herança medieval e os engenhos; de modo muito particu- lar, seu estado natal. Pernambuco,
e sua cidade, o Recife. São objeto de verificação e análise os mocambos, os cemitérios e o rio Capibaribe, que aparece, por mais de uma vez, personificado.
• A Espanha e suas paisagens, em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. "Sou um regionalista também na Espanha, onde me considero um sevilhano. Não há que civilizar o mundo, há que “sevilhizar” o mundo", afirma o poeta.
• A Arte e suas várias manifestações: a pintura de Miró, de Picasso e do pernambucano Vi-
cente do Rego Monteiro; a literatura de Paul Valéry, Cesário Verde, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos e Drummond; o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia; a própria arte poétIca.           

1. "A fala a nível do sertanejo engana: as palavras dele vêm, como rebuçadas (palavras confeito, pílula), na glace de uma entonação lisa, de adocicada. Enquanto que sob ela, dura e endurece o caroço de pedra, a amêndoa pétrea, dessa árvore pedrenta (o sertanejo) incapaz de não se expressar em pedra.

2. Daí porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca e no idioma pedra se fala doloroso; o natural desse idioma fala à força. Daí também porque ele fala devagar: tem de pegar as palavras com cuidado, confeitá-las na língua, rebuçá-las; pois torna tempo todo esse trabalho."
                                                                                                           ("O sertanejo falando")

   Para João Cabral, o ato de escrever consiste num trabalho de depuração; as palavras são degustadas e selecionadas pelo seu sabor e peso, não podem boiar à toa:

"Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois joga-se fora oque boiar.             

Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco,"
                                                ("Catar feijão")

    Na obra. "O CÃO SEM PLUMAS", João Cabral de Melo Neto fala sobre o rio CAPIBARIBE, que arrasta. os detritos dos sobrados recifenses. Homem, rio, pele e lama acham-se amalgamados nesta paisagem do rio.     

"Aquele rio
era como um cão sem plumas
Nada sabia da chuva azul ,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,  
dos peixes da água,
da brisa na água . "
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama.
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril
que habita as ostras."
   ..........................
“Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a Iama
começa do rio;
onde o homem,
onde a pele
Começa da lama ;
onde começa o homem
naquele homem. "

                                 “MORTE  E  VIDA  SEVERINA”
                                                            (Auto  de  Natal  Pernambucano)

    “Morte e vida Severina”  é um belíssimo exemplo de peça literária perfeita, em que forma, conteúdo e linguagem compõem um conjunto harmonioso e indissociável. Ao abordar a injusta distribuição de riquezas que caracteriza secularmente a nossa sociedade (com particular ênfase para a questão agrária), João Cabral revira o nosso passado colonial com suas estruturas de herança medieval (concentração da riqueza, grandes propriedades, patriarcalismo, teocentrismo, etc.). Significativa é a caracterização do coronel (como latifundiário, ou remanescente do feudalismo): "por causa de um coronel/que se chamou Zacarias / e que foi o mais antigo / senhor desta sesmaria ", Temos, assim, uma remissão às origens dos nossos problemas agrários e, mais remotamente, à lusitana lei das sesmarias de D. Fernando, em fins da Idade Média. Por isso mesmo, João Cabra! segue um modelo medieval de poesia: constrói um auto (poema narrativo para ser representado, de tradição medieval, forte religiosidade e linguagem popular), com versos curtos e ritmados, que lembra a literatura de cordel.              
     O auto apresenta várias passagens ou cenas, etapas na longa jornada do retirante Severino, que sai em busca da vida; caminhando em direção ao mar e atravessando as regiões típicas dos estados nordestinos: o Sertão, o Agreste, a Zona da Mata, a cidade litorânea.

1- O retirante explica ao leitor quem é e a que vai

- O meu nome é Severino,
 não tenho outro de pia*.
 Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
 há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
 já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
 no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre   
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que  em vossa presença emigra.
  (..............................)

    Ao iniciar sua jornada, Severino já se depara com a morte (e assim será, ao longo de toda a caminhada). Observe como é abordada a questão da luta pela terra, com destaque para os métodos utilizados pelos grandes proprietários.

2- Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: Ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!"

“- A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
Dizei que eu saiba.
- A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
- E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
- Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
- E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
 - Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
- E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
- Até que não foi morrida,
irmão das almas,
essa foi morte matada,
numa emboscada.
- E o que guardava a emboscada,
irmãos das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
- Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
- E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas..
quem contra ele soltou
essa-ave-bala?
    (............................)

     Depois de atravessar o Sertão, o retirante chega à Zona da Mata e, ao ver a terra mais branda e macia com água que nunca seca, e a cana verdinha, pensa ter encontrado a vida. Porém:   

3-Assiste ao enterro de um trabalhoador do eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério.

- Essa cova em que estás,        - É uma cova grande            trabalharás uma terra
com palmos medida,                  para teu defunto parco,            da qual, além de senhor,
é a conta menor                         porém mais que no mundo       serás homem de eito* e trator.
que tiraste em vida.                   te sentirás largo.                         Trabalhando nessa terra,
- É de bom tamanho,                 - É uma cova grande   .~.          tu sozinho tudo empreitas:
nem largo nem fundo,               para tua carne pouca,        " serás semente, adubo, colheita.
é a parte que te cabe                 mas a terra dada                      Trabalharás numa terra
deste latifúndio.                         não se abre a boca.             Que também te abriga e te veste:
- Não é cova grande,            - Viverás, e para sempre,        embora com o brim do Nordeste.
é cova medida,                       na terra que aqui aforas:             Será de terra
é a terra que querias               e terás enfim tua roça.                tua derradeira camisa:
ver dividida.                          - Aí ficarás para sempre, te veste, como nunca em vida.
- É uma cova grande              livre do sol e da chuva,              - Será de terra
para teu pouco defunto          criando tuas saúvas:                 e tua melhor camisa:
mas estarás mais ancho*              - Agora trabalharás                   te veste e ninguém cobiça;
que. estavas no mundo.       só para ti, não a meias,                   (...........................)
                                            como antes em terra alheia.

       Ao chegar ao Recife, o retirante percebe que sua caminhada foi inútil, pois só encontrou a morte: “ chegando, aprendo que,/ nessa viagem que eu fazia, / sem saber desde o Sertão, / meu próprio enterro eu seguia.” Numa ponte sobre o rio Capibaribe, desesperançado, Severino pensa em suicidar-se, “sair fora da vida”. Nesse momento, ao conversar com José, mestre carpina (carpinteiro, como o José bíblico), Severino assite ao nascimento de um menino, símbolo da esperança, a explosão de uma vida, mesmo que Severina.

4- Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc.

  - De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida.
é uma criança franzina,
tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
- Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo*
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
- Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque* e setemesinha*,
mas as mãos que criam coisas
suas já se adivinha .
- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós*
contra o Agreste de cinza.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
a caatinga sem saliva.
           
5- O carpina fala com o retirante , que esteve de fora, sem tomar parte em nada

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É dificil defender,
só com palavras, a vida,
- ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-Ia desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

                                             QUESTÕES

1-(UFMG) Sobre o adjetivo severina, da expressão Morte e vida severina que intitula a peça de João Cabral de Meio Neto, todas as afirmativas estão certas, exceto:
a) Refere-se aos imigrantes nordestinos que, revoltados, lutam contra o sistema latifundiário que oprime o camponês.
B Pode ser sinônimo de vida árida, estéril, carente de bens materiais e de afetividade.
c) Designa a vida e a morte dos retirantes que a seca escorraça do sertão e o latifúndio escorraça da terra.
d) Qualifica a existência negada, a vida daqueles seres marginalizados determinada pela morte.
e) Dá nome à vida de homens anônimos, que se  repetem física e espiritualmente, sem condições concretas de mudança.

2- (FUVEST-SP) É correto afirmar que no poema dramático Morte e vida severina, de João Cabra) de Meio Neto:
a) a sucessão de frustrações vividas por Severino faz dele um exemplo típico de herói moderno, cuja tragicidade se expressa na rejeição à cultura a que pertence.
b) a cena inicial e a final dialogam de modo a indicar que, no retorno à terra de origem, o retirante estará munido das convicções religiosas que adquiriu com o mestre carpina.
c) o destino que as ciganas preveem para o recém-nascido é o mesmo que Severino já cumprira ao longo de sua vida, marcada pela seca, pela falta de trabalho e pela retirada.
d) o poeta buscou exprimir um aspecto tia vida nordestina no estilo dos autos medievais, valendo-se da retórica e da moralidade religiosa que os  caracterizavam.
e) o "auto de Natal" acaba por definir-se não exatamente num sentido religioso. mas enquanto reconhecimento da força afirmativa e renovadora que está na própria natureza.

3- (PUC-RS) "Entre a paisagem / (fluía) / de homens plantados na lama; /de casas de lama  plantadas em ilhas / coaguladas na lama; / paisagem de anfíbios / de lama e lama. / Como o rio, / aqueles homens / são como cães sem plumas. / Um cão sem plumas / é mais / que um cão saqueado; / é mais que um cão assassinado."
    As estrofes acima são exemplos do traço de ............ e de .......... que existe no poema de João Cabral de Meio Neto.
a) rebeldia, ódio pela sociedade
b) melancolia, indiferença pelo mundo
c) ternura, paixão pela existência
d) compaixão, solidariedade ao homem
e) saudade, medo do quotidiano

4- (UM-SP) Este "auto de Natal pernaMbucano, longo poema equilibrad entre rigor formal e temática, conta o roteiro de um homem do Agreste que vai em demanda do litoral e topa em cada parada com a morte, presença anônima e coletiva, até que no último pouso lhe chega a nova do nascimento de um menino, signo de que algo resiste à constante negação da existência" (Alfredo Bosi, História concisa da literaturara brasileira, p. 523): trata-se de:
   a)Pai  João.     b) Evocação do Recife.      c) Brasil-menino.     c) Morte e vida severina.

5- (PUC-RS)
"O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre."

A estrofe acima ilustra a assertiva de que a poesia de João Cabra! de Melo Neto revela um rigor ............. e a preocupação com o ......................
a) técnico - problema social
b) semântico - fazer poético
c) estilístico – ambiente regional
d) formal - momento político
e) métrico - conflito estético

Gabarito: 1) a   2) e   3) d   4) d    5) a





segunda-feira, 11 de julho de 2016

ROMANCE DE 30: CYRO MARTINS

CYRO  MARTINS

(1908 – 1995) Romancista, ensaísta, novelista, médico psiquiatra. Pessoa simples e sonhadora, começou sua carreira aos 15 anos, escrevendo artigos políticos, oposicionistas, libertadores e contos regionais, publicados em jornais da sua cidade. Foi um dos autores mais produtivos do período e grande parte de sua obra está dedicada à temática rural. Em um dos seus contos, Alma Gaudéria, revive uma das últimas carreiradas de campanha, junto à venda de seu pai.
Seu primeiro livro publicado foi Campo Fora, onde retrata suas experiências infantis vividas na campanha, as gauchadas, as carreiradas, os “causos” de galpão, os tesouros e assombrações das lendas.
A literatura de Cyro Martins fala do gaúcho que foi uma figura de grande destaque histórico, mas tornou-se marginalizado pela evolução natural dos fenômenos sociais, econômicos e políticos. Foi um profundo estudioso da obra humana na ficção e na realidade.
Principais obras:
Porteira Fechada – tem como tema a tirania econômica da classe dominante (os fazendeiros)  sobre a massa de trabalhadores rurais. O problema básico é o da distribuição e da apropriação das terras e o modo de exploração das mesmas. Esse livro, junto com Sem Rumo e Estrada Nova  retrata a degradação que é imposta ao gaúchos pobres, motivada pelo afastamento do seu habitat natural, o campo, e a necessidade de se refugiar nas favelas das cidades grandes e forma o que é chamada “trilogia do gaúcho a pé”. Além disso, escreveu: A Entrevista, A Dama do Saladeiro, O Mundo em que Vivemos, Sombras na Correnteza, Príncipe da Vila.

CYRO MARTINS

Jornal da Câmara Riograndense do Livro - Agosto/98
Cyro Martins, escritor e psiquiatra, criador da expressão "gaúcho a pé", completaria 90 anos em agosto. Sua importância no panorama da literatura vem tanto do texto apurado, como da visão profunda e original sobre as mudanças sociais e ecônomicas aoperadas no microcosmos do pampa do Rio Grande do Sul. Contribuiu para a criação de uma nova abordagem da temática regional, assim como para a recontextualização da figura mítica do gaúcho.
Nascido em Quaraí, em 05 de agosto de 1908, Cyro Martins começou a escrever aos 15 anos. Eram artigos políticos, oposicionistas, libertadores e contos regionalistas. Formou-se em Medicina em 1933. No ano seguinte, publicou seu primeiro livro: "Campo Fora". Nesse livro, recolhi as experiências infantis e sobre elas trabalhei com a minha fantasia de escritor. Em Quaraí, o balcão da venda de seu Bilo (seu pai) foi o que ele chamou de o grande mirante de onde via desfilar a decadência do gaúcho. A fantasia de "Campo Fora" deixa lugar para a amarga realidade de uma gente sem estímulo. Cyro escreve, então, "Sem Rumo", sobre o gaúcho a pé, expressão que usou pela primeira vez em 1935 e que serviu para definir a trilogoia que se formou depois com "Porteira Fechada" e "Estrada Nova".Cyro Martins disse certa vez que não ser um escritor de carreira."Permaneço na condição de escritor bissexto, pois toda a minha literatura é feita no rabo das horas. O melhor das minhas possibilidades intelectuais foi consagrado à Medicina, em especial à Psiquiatria e à Psicanálise. mas esta afirmação não significa menos ternura pelo que realizei no plano da ficção literária."Sobre a importância da literatura, disse que "afinou minha sensibildiade para a pesquisa da alma humana, sobretudo porque nunca fiz regionalismo no sentido pitoresco e sim para buscar o que havia de universal naquele homem singular que era o gaúcho a pé."
Ao lembrarmos da obra e vida de Cyro Martins, é quase impossível não pensar também em Dyonélio Machado. Também natural de Quaraí, Dyonélio soube trabalhar com maestria a relação entre a psiquiatria e a literatura, que são dois importantes motores para o profundo conhecimento da alma humana. Escritores e médicos, Cyro e Dyonélio, além de conterrâneos, foram dois expoentes da literatura gaúcha e brasileira. A Editora Movimento relançou o livro "O Mundo em que Vivemos", de Cyro Martins. Carlos Appel diz que este livro é o texto básico das idéias científicas de Cyro Martins. Todo o trabalho de reedição e revisão da obra está sendo acompanhada pela filha do escritor, Maria Helena Martins. Appel diz que esta obra contribui para fixar a importância de Cyro Martins, tanto no campo literário como científico. "Não é simplesmente uma reedição, é uma reavaliação de cunho crítico, com revisão ortográfica e sintática. Cyro Martins vai deixar de ser o escritor da trilogoia do gaúcho a pé para transformar-se em um escritor que falou sobre um gaúcho menos regional e mais universal".


"O ato de criação artística requer certa predisposição, que é a dimensão poética do espírito. Esse acesso às emoções que comandam sua vida interior põe o artista defronte ao outro si mesmo, assim como a associação livre do paciente e atenção flutuante do psicanalista, colaborando, produzem o insight na situação artística."

Minha literatua regionalista não é saudosista. Ela tem um sentido de protesto. Fala do gaúcho que foi uma figura de grande destaque histórico, mas marginalizado pela evolução natural dos fenômenos sociais, ecônomicos e políticos. Não houve cuidado em poupar esse homem quando ele perdeu o cavalo e perdeu a distância. Sem rumo, ele foi ficando à beira das cidadezinhas, morrendo de sífilis, de tuberculose, de cachaça, de peleias inúteis. 
BIBLIOGRAFIAFIA
• Campo Fora - 1934, Globo

• Sem Rumo - 1937, Ariel

• Enquanto as Águas Correm - 1939, Globo

• Mensagem Errante - 1942, Globo

• Porteira Fechada - 1944, Globo

• Estrada Nova - 1954, Brasiliense

• A Entrevista - 1968, Sulina

• Rodeio - Estampa e Perfis - 1976, Movimento

• Sombras na Correnteza - 1979, Movimento

• A Dama do Saladeiro - 1980, Movimento
• O Príncipe da Vila - 1982, LPM

• O Mundo em que Vivemos - 1983, Movimento

• Gaúchos no Obelisco - 1984, Movimento

• A Mulher na Sociedade Atual (ensaio) - 1984, Movimento

• Na Curva do Arco-Íris - 1985, Movimento

• O Professor - 1988, Movimento

• Para Início de Conversa (memórias) - 1990, Movimento

• Um Sorriso para o Destino - 1991, Movimento

• Páginas Soltas - 1994
PAINEL REALISTA DA SOCIEDADE SULINA
   Cyro Martins é um intelectual de imensa importãncia no cenário da cultura sul-riograndese, não só por sua obra ficcional como por sua dedicação à carreira de médico psiquiatra. Foi um dos pioneiros no estudo e na aplicação da teoria de Sigmund Freud em nosso estado, além de ter participado como fundador de diversas entidades ligadas aos estudos psicanalíticos.
   Seus textos literários são sempre louvados pelo painel realista que pintam da sociedade sulina, especialmente em relação à trajetória do homem do campo. Iniciou sua carreira com o livro de contos Campo Fora, publicado em 1934, mas foi com o romance que se consagrou. Na trilogia do "gaúcho a pé" (termo cunhado por ele mesmo em 1935), composta pelos romances Sem Rumo, Porteira Fechada e Estrada Nova, Cyro Martins desenvolve a temática da lenta expulsão dos peões da estância e seu conseqüênte empobrecimento nos cinturões de miséria das cidades, colocando a nú os problemas sócio-econômicos que aparecem na campanha a partir de 1910. Nessa perspectiva, sua obra permanece atual, na medida em que tais problemas se avolumaram com o passar do tempo.
   Seu grande valor reside no fato de ter recirado um mundo e uma época de intensas transformações sociais, as quais mudaram o modo de encarar o papel de peão dentro dessa nova estrutura social em que se formava. O modelo de gaúcho (o "gaúcho a cavalo") , que reinava até então, é substituído pela figura do "gaúcho a pé": sem rumo, marginalizado, já que sem serventia dentro do novo quadro que se apresenta; sem possibilidade de retorno, pois a porteira está fechada; e à procura de outras perspectivas, de uma vida autônoma, sem servilismo, de uma estrada nova rumo à urbanização e à profissionalização.
Márcia Ivana de Lima e Silva
Doutora em Teoria da Literatura - PUCRS; 
Professora do Curso de Letras da UFRGS; 
Coordenadora do Acervo Literário Érico Veríssimo
LITERATURA E HISTÓRIA NA TRILOGIA DE CYRO MARTINS: A REPRESENTAÇÃO DOS GAÚCHOS E DAS PRENDAS A PÉ
                                                                                            Caroline dos Santos Cardoso
3 A trilogia do gaúcho a pé: realidade e ficção nos romances de Cyro Martins
    3.1 Sem rumo: A supremacia do Partido Republicano Rio-Grandense
   Na obra Sem rumo, o primeiro romance que compõe a trilogia do gaúcho a pé, o contexto histórico predominante é o político. Do conjunto de referências aos fatos reais apresentados por Cyro Martins, destacam-se a menção à República Velha, ao governo de Borges de Medeiros e ao processo eleitoral da época. O primeiro elemento que podemos observar na narrativa, acerca dos fatos históricos, é a referência à Republica Velha, período marcado pela hegemonia do Partido Republicano Rio-Grandense e pelo governo de Borges de Medeiros, durante o período de 1913 a 1928, presente no diálogo entre as personagens coronel Dutra e Manuel Garcia:
   ” - O que eu ia dizer, e disto você deve estar cientificado, é que teremos eleições este ano. O nosso candidato, como sempre, será o impoluto Dr. Borges de Medeiros, presidente do Estado e chefe incontestável do Partido Republicano Rio-Grandense. Isto não está oficialmente assentado, mas, é claro, não se pode esperar outra coisa.”
    Nesse trecho, ao recuperar a figura de Borges de Medeiros e de seu Partido, o autor também retoma o sistema eleitoral da época. Apesar do poder absoluto do Partido Republicano Rio-Grandense, a oposição, mais conhecida como maragatos, preparava-se visando à indicação de um candidato para a disputa do cargo de presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Para evitar a ameaça dos maragatos, os filiados ao Partido Republicano utilizavam diferentes estratégias para impor o poder, entre elas se destacava o controle absoluto que o partido exercia sobre os coronéis e a capacidade que estes possuíam para mobilizar os votos em suas localidades. Cyro Martins retrata os mesmos fenômenos na fala do coronel Dutra, o qual defende o poder absoluto de Borges e de seu partido, além de manipular o povo em relação ao controle dos votos da região:
   “- Pois então ficamos acertados. Você será nomeado professor rural, deixará esta vidinha miserável, própria de indivíduos incapazes, porque a rabiça do arado não foi feita para mãos de homens da têmpora de Manuel Garcia. E em troca dessa mudança de vida, uma verdadeira loteria, o que lhe exigimos? Veja o nosso desprendimento – nada! Apenas o seu voto e a sua cabala nas redondezas para o Dr. Borges de Medeiros, o maior rio-grandense vivo!”
     Outro aspecto que Cyro Martins recupera em sua obra, no que se refere à história política brasileira e, consequentemente, rio-grandense, é a instauração do voto secreto. O autor apresenta tal elemento nos discursos dos candidatos da oposição, discursos estes que defendiam e priorizavam a população menos favorecida, além de enfatizar a importância do novo sistema de votação:
     Dês do primeiro orador até o último, Chiru vibrou, comoveu-se, indignou-se. E quando a manifestação se dissolveu, ele saiu matutando sobre as palavras do último que discursou: “Senhores, concidadãos, conterrâneos! O voto secreto que vamos estrear nas próximas eleições foi uma conquista irreversível do povo. É mentira que alguém possa violar o sigilo do voto!”.
      Outro aspecto importante foi a possibilidade do voto feminino. Cyro Martins introduz este momento histórico nos capítulos finais de Sem rumo. Mais uma vez, através da fala da personagem Lopes:
   “ - Estou fazendo tudo que posso, doutor. Mas, o sr. sabe, o pessoal é sem-vergonha, sem palavra. Além disto, nesta eles estão vindo de a cabresto. E com esta invenção, agora, de voto feminino, a situação piorou muito, porque o dr. Rogério andou de casa em casa, pedindo voto pra tudo quanto foi mulher que pariu nas mãos dele!”
      A história eleitoral do Rio Grande do Sul, especialmente na primeira metade do século XX, foi marcada pela fraude nas eleições, principalmente no que se refere à utilização de títulos eleitorais falsos ou de pessoas que votavam com títulos de falecidos. Em Sem rumo, este aspecto da história também é explorada pelo autor:
    “- Anda depressa, homem, que está na hora. Chiru mal atou as cordas dos sapatos novos. Enfiou o casaco de carregação, novo também. Embarcou no auto. Lopes virou-se para ele, passando-lhe ao mesmo tempo um cartão dobrado e impresso, listrado de verde e amarelo. Chiru olhou para aquilo sem compreender. - É o título. João Fernandes da Silva é o teu nome. Não esqueça. E isto (alcançando outro papel) é a chapa. Tem que meter dentro do envelope que o presidente da mesa te der. E não vai te bobear tentando trocar de chapa, porque a eleição toda está sob controle.
    Diante da análise apresentada, até o momento, confirma-se o diálogo entre história e ficção na construção do romance Sem rumo, verifiquemos como tal relação se dá nas demais obras que constituem a trilogia.

3.2 Porteira fechada: os detentores do poder político perdem força
   Em Porteira fechada, dentre os fatos reais inseridos na obra, Cyro Martins apresenta o declínio do poder do Partido Republicano Rio-Grandense, a supremacia dos chefes políticos que perdeu força gradativamente no Estado, tanto no domínio político quanto no âmbito social. Juntamente com a representação das transformações ocorridas no cenário político estadual, o autor recupera mais uma vez o processo eleitoral fraudulento que ainda permanecia no Estado, além de apresentar novamente em sua obra fatos e personagens que caracterizam a história do Rio Grande do Sul.
     A queda do poder e a decadência de uma política centralizadora, injusta e cruel são representadas na obra, principalmente, através do bolicheiro Fagundes. A personagem retrata, dentro da obra, o período de transição pelo qual o Partido Republicano passou, da ação predominante ao declínio no cenário político estadual. Essa transição pode ser associada à própria vida da personagem Fagundes dentro da obra, o qual passou do cargo de subintendente, fiel ao Partido, à atividade de bolicheiro de uma área miserável do município de Boa Ventura. Durante o período que desempenhava a função de subintendente, Fagundes era respeitado e temido pelas demais pessoas:
   “Leandro resvalou um olhar demorado, cheio de significação, pelas costas volumosas do capitão. Conhecia-lhe a fama, e só de lembrar certos fatos da sua vida, arrepiava-se. Mas isso não impedia que o tratasse com delicadeza. Demais, eram correligionários... E Fagundes não perdia oportunidade para se vangloriar de ser homem de confiança do Coronel Ramiro, chefe incontestável do município.”
    Na citação acima, observa-se mais uma vez as ações que caracterizavam o modo de gestão dos republicanos, marcado pelo abuso de autoridade, pela violência e pelo predomínio do poder dos coronéis. Verifica-se novamente que Cyro Martins apresenta em sua obra os fatos que marcaram a história política do Rio Grande do Sul e, através delas, dá vida às suas personagens. Os coronéis, até então chefes incontestáveis dos municípios, deixam de exercer o poder absoluto, os detentores do poder político perdem força no cenário estadual, fenômeno este que é apresentado em Porteira fechada através da personagem do coronel Ramiro: Até pouquinho antes do Coronel Ramiro apear do poder, Fagundes ainda alimentava esperanças de um auxílio mais eficiente, em dinheiro, em crédito ou mesmo um lugar de Guarda-Aduaneira. Mas depois que o chefe caiu... -                
    “Agora, meu negro, só no dia de São Nunca! Atucanava-lhe a mulher seguidamente, com sarcasmo.”
     Com a queda do coronel Ramiro, seus aliados perderam benefícios e ajuda. A partir do posicionamento de Fausta, esposa de Fagundes, verifica-se como o declínio do poder político é acentuado, uma vez que não há mais esperança de auxílio por parte dos seus líderes, já que sua ação no âmbito político não é mais efetivamente ativa. A esperança de Fagundes por uma ajuda mais eficiente, pelo reconhecimento do seu trabalho frente às ordens do Partido, mostra e recupera mais uma vez características da administração política no Estado, a qual era movimentada pela troca de favores entre chefes políticos e aliados, processo este que, com a queda do poder político, perdeu força.
     Além de representar em Porteira fechada o declínio do poder do Partido Republicado, Cyro Martins novamente retoma o sistema eleitoral da época, centralizado nas trocas de favores entre chefes políticos e aliados e, também, nas fraudes nos processos de votação como, por exemplo, a efetivação de votos através de títulos de eleitores já falecidos:      
   “Quevedo submetia-se a tudo, discretamente. Aprendeu a custo a garatujar o nome, para fins eleitorais. Mas nunca chegou a votar com título próprio, sempre se desobrigou dos deveres partidários usando títulos de eleitores defuntos. Em duas eleições os fiscais da oposição protestaram contra o seu voto, porém, diante da sua calma imperturbável, os oposicionistas acabaram aceitando o seu título como legítimo. Foram duas pequenas vitórias que ele obteve para o partido. Em paga de tamanha lealdade, Ramiro reafirmou-lhe a promessa de que ele seria o substituto do velho André.”
    A análise dos fragmentos extraídos do romance Porteira fechada confirma novamente, como já verificado em Sem rumo, que aspectos da história rio-grandense estão inseridos na obra ficcional. Porém, diferentemente de Sem rumo, Porteira fechada mostra aos leitores o início da quebra da supremacia do Partido Republicano Rio-Grandense, sem deixar de recuperar personagens e processos políticos que sempre estiveram presentes nas ações políticas no Estado.

3.3 Estrada nova: uma nova perspectiva política
    A obra que faz o fechamento da trilogia do gaúcho a pé, Estrada nova, traz em sua essência as novas possibilidades políticas inseridas no Rio Grande do Sul. Novas visões governamentais são adotadas, o povo torna-se mais ativamente engajado na política, o que ocasiona a crítica ao antigo sistema governamental. Ao iniciar a análise  da obra, em relação aos elementos históricos presentes em sua construção, pode-se verificar que o autor mais uma vez faz referências a acontecimentos que marcaram política e socialmente a história do Estado. Tais acontecimentos são introduzidos no romance através das recordações e lembranças das personagens, as quais recuperam fatos que refletiram diretamente em suas vidas. Continuando a análise, neste subcapítulo destacam-se as referências os acontecimentos históricos e, mais uma vez, ao sistema eleitoral.
     Dentre os momentos históricos, o autor faz menção ao Estado Novo através da personagem Flávio, ex-arrendatário que perdeu suas terras, vendidas a um castelhano com grande poder aquisitivo:
    “ - Arrendei aquela estância durante quatorze anos. Todo o mundo de fora pensava que era minha a propriedade. Eu mesmo achava que não ia sair mais dali, pois tencionava seriamente comprar o Espinilho. Mas um belo dia, isso não foi muito antes da guerra, lá por fins de 37, no ano do Estado Novo, apareceu um castelhano endinheirado e o dono não teve dúvida em negociar com ele.”
   No entanto, a recuperação da história, brasileira-rio-grandense, não está centralizada apenas nas referências a momentos históricos específicos, mas também na reflexão das próprias personagens frente às modificações que ocorreram nos processos políticos e sociais no Estado. O Coronel Teodoro, ao comparar o período borgista com o atual sistema em que está inserido, apresenta as características de ambos os momentos históricos em relação aos processos eleitorais:
     “Agora se fazia política a propósito de tudo. Coisas que antes nem se falava, coisas que nem se sabia que existiam ou, se existiam, não tinham a menor importância na eleição dum deputado, dum prefeito ou mesmo dum presidente do Estado, estavam agora na ordem do dia. Não se lia mais um discurso político que não falasse em energia elétrica, nos ferroviários, nos mineiros e, sobretudo na classe operária. Francamente, não entendia mais nada. No tempo do dr. Borges de Medeiros, no Estado, e do coronel Januário no Município, as eleições se faziam por assim dizer no grito nomais... Oh, eleição peleada, aquela! Que correria de próprios, de chasques, levando cartas, bilhetes, recados, plata, promessas, ameaças...”
     Apesar de já apresentar esta nova perspectiva política no âmbito estadual, Cyro Martins ainda recupera fatos históricos que marcaram o predomínio do Partido Republicano, os quais foram o ponto de partida para os oposicionistas reivindicarem a análise dos processos eleitorais no Estado, já que as fraudes eram realizadas livremente. Devido a um sistema eleitoral fragilizado e precário, os filiados ao Partido Republicano Rio-Grandense não encontraram, até o ano de 1922, barreiras que impedissem as fraudes nos processos de votação. Por esse motivo os vivos eram sempre governados pelos mortos, pois ocorria em massa a efetivação de votos em nome de defuntos, os quais sempre elegiam o partido que já se encontrava no poder, o Republicano.
      As eleições de 1922 foram o marco para a quebra da supremacia do Partido. A reeleição de Borges de Medeiros para o seu 5º mandato enfureceu a oposição, a qual alegava fraudes na eleição do candidato republicano. Este período de turbulência também é apresentado em Estrada nova: Em 22, por ocasião do pleito Assis-Borges, o Rio Grande se alvorotava de novo.
     A partir das considerações apresentadas no decorrer deste capítulo, confirma-se, portanto, que Cyro Martins representa fatos e personagens que caracterizam a história rio-grandense. Esse diálogo entre ficção e história se dá através da criação de personagens que representam episódios históricos reais, ou seja, o contexto histórico brasileiro e rio-grandense é utilizado para justificar e caracterizar as ações realizadas pelas personagens, ações estas que visam recuperar e denunciar a real história do homem do campo frente às transformações políticas, sociais e econômicas. Pode-se exemplificar esta constatação a partir da menção de personagens históricos que são recuperados na construção interna dos romances como, por exemplo, Getúlio Vargas e Borges de Medeiros e, também, por meio da apresentação de acontecimentos e de fatos políticos, sociais e econômicos que marcaram a história brasileira e rio-grandense: o sistema eleitoral fraudulento, a instauração do voto secreto e a possibilidade do voto feminino.

www.pucrs.br/edipucrs/online/IXsemanadeletras/.../Caroline_dos_Santos_Cardoso.pdf


100 ANOS DE CYRO MARTINS: EXPULSÃO E CRIMINALIZAÇÃO DOS ''GAÚCHOS A PÉ''
                                                                                            DIORGE KONRAD *




    João Guedes, o gaúcho honesto e sofredor que a garra adunca do senhor do campo lança repentinamente nas ''coroas de miséria'' que envolvem a cidade do interior, é um homem que hoje pode ser encontrado em centenas de reproduções em nosso Estado (Décio Frei)

"Testemunhos de protesto como são, meus romances teriam que ser campeiros e pracistas, para acompanhar de perto o destino dos migrantes" (Cyro Martins, no ensaio Páginas soltas, escrito em 1994).

   Em 5 de agosto de 1908, nascia o escritor e psicanalista gaúcho Cyro Martins, morto em 1995. Natural de Quaraí , na fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul, foi o autor dos romances Sem Rumo (1937), Porteira Fechada (1944) e Estrada Nova (1954), nomeados pela crítica literária como a “Trilogia do Gaúcho a Pé”,  por abordar atores sociais em situação de pobreza no campo e marginalidade na cidade.
   Ainda menino, em 1920, foi morar em Porto Alegre a fim de estudar. Mais tarde cursaria a faculdade de Medicina, formando-se em 1933. Ao retornar à Quaraí, foi médico por três anos. Foi ali que conheceu mais de perto a miséria social decorrente da capitalização das estâncias gaúchas que, abordaria em seus romances, tornando-o um dos principais intelectuais do Rio Grande do Sul.
    Filiado ao Partido Comunista do Brasil, teve atuação destacada junto à vanguarda do pensamento gaúcho, escrevendo na revista Rumo, em 1936, em A Tribuna Gaúcha, a partir de 1946 e também na revista Horizonte, onde foi editor junto com Lila Ripoll.
Tragicamente, no centenário de nascimento de Cyro Martins, partiu do Rio Grande do Sul a mais recente tentativa de criminalização do movimento social que herda a tradição do “gaúcho a pé” na luta pelo acesso à terra, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra.
    Em 2008,  assistimos a maior ofensiva civil-militar contra os movimentos sociais, e o MST em particular, desde o fim da Ditadura Civil-Militar. Tornou-se pública a ata n. 1.116 do Conselho Superior do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul. Nela, fica evidente a estratégia do governo de Yeda Crusius, através da Brigada Militar, da FARSUL (a entidade máxima dos ruralistas gaúchos) e de parcela do Poder Judiciário para dissolver o Movimento Sem Terra, impedir a luta pela reforma agrária e o avanço da democracia social em nosso país.
   Baseando-se no Estatuto da Terra da Ditadura, o qual pôs na ilegalidade as Ligas Camponesas, são propostas as seguintes medidas: designar uma equipe de promotores de justiça para promover ação civil pública com vistas à dissolução do MST e a declaração de sua ilegalidade; suspender as marchas, colunas ou outros deslocamentos em massa de sem-terras; investigar os integrantes de acampamentos e da direção do MST pela prática de crime organizado; investigar os integrantes de acampamentos e a direção do MST no que toca ao uso de verbas públicas e de subvenções oficiais; intervenção do Ministério Público em três escolas para a readequação à legalidade, tanto no aspecto pedagógico quanto na estrutura de influência externa do MST com vista à proteção da infância e juventude em relação às bases pedagógicas veiculadas nas escolas mantidas ou geridas pelo MST, impedimento da presença de crianças e adolescentes em acampamentos e em deslocamentos em massa; desativação dos acampamentos situados nas proximidades da Fazenda Coqueiros bem como de todos os acampamentos que estejam sendo utilizados como 'base de operações' para invasão de propriedades; investigação dos assentamentos promovidos pelo Incra ou pelo Estado do Rio Grande do Sul, de forma a verificar se a propriedade rural, nessas áreas, cumpre sua função social; realização de investigação eleitoral nas localidades em que se situam os acampamentos controlados pelo MST, examinando-se a existência de condutas tendentes ao desequilíbrio deliberado da situação eleitoral local e; formulação de uma política oficial do Ministério Público, com discriminação de tarefas concretas, com a finalidade de proteção da legalidade no campo.
    Esse movimento reacionário não se resume apenas ao aumento da repressão militar aos movimentos sociais. Em Carasinho, no norte do estado, em 29 de julho, integrantes do MST tiveram a primeira audiência onde respondem processo baseado na Lei de Segurança Nacional, a mesma que regulou e orientou a ação da Ditadura Pós-1964. 
   54 anos depois de Estrada Nova (1954), 64 depois de Porteira Fechada, 71 depois de Sem Rumo e nos cem anos do nascimento de Cyro Martins bem que os procuradores gaúchos poderiam ler a trilogia desse extraordinário escritor. Quem sabe, voltariam a  tirar as vendas de Themis.   Assim, olhariam para a realidade centenária de expulsão dos homens da terra no Rio Grande do Sul, formada pelas sesmarias, consolidadas pela falta de reforma agrária com o fim da escravidão e aprofundadas com a mecanização do campo feita pelo agronegócio sem a respectiva partilha da terra.

O Contexto Histórico do “Gaúcho a Pé” de Cyro Martins
    Apesar do Movimento de 1930, no Rio Grande do Sul, não houve mudança radical na estrutura agroexportadora e no modelo histórico de desenvolvimento. Seu desenvolvimento econômico continuou concentrado na agricultura e na pecuária, destinando-se a ser um complemento da economia central com o papel de fornecer gêneros de subsistência ao mercado nacional. Para as classes dominantes nacionais interessava manter aquela dinâmica. Por isso, consolidou-se uma relação de dependência e complementaridade. 
    Neste quadro, o governo central, segundo argumenta Sandra Pesavento, “procurava de todas as maneiras resolver os problemas das regiões econômicas periféricas, desde que os interesses destas não entrassem em contradição com (...) a integração do mercado pela articulação das economias regionais e a  diversificação da estrutura produtiva da nação. Ambos, em última instância, se resumiam em um único: garantir a continuidade do processo de acumulação capitalista no país. 
    Sendo um estado essencialmente exportador - o charque ainda era o principal produto - o Rio Grande do Sul dependia, de forma geral, da política econômica do governo central, mesmo quando as charqueadas perdiam espaço para a implantação de frigoríficos, sobretudo devido à matéria-prima.
   No caso da pecuária, a criação permanece fundamentalmente extensiva, com a criação do gado em largas extensões de terra, não tendo uma maior utilização de novas tecnologias para “incrementar a produtividade”. Na produção agrícola, também, os problemas eram grandes, impossibilitando um maior estímulo ao setor.
    Esse quadro é mostrado por Sandra Pesavento. A historiadora argumenta que do ponto de vista do proprietário da terra e gado, a baixa capitalização limitava as chances alternativas do uso do potencial produtivo da terra. Além disso, o elevado custo das máquinas, fertilizantes e defensivos agrícolas, sob o controle das empresas estrangeiras, aliada à concorrência do mercado nacional e internacional de outros produtos, dificultava o êxito da lavoura capitalista gaúcha de exportação. 
    Assim, a crise agropecuária só poderia ser revertida por um grande desenvolvimento industrial que surgisse do setor primário. Como isso não acontecia, o Rio Grande do Sul mantinha a sua estrutura tradicional, pois a agricultura como a pecuária, não serviam de fator gerador da “acumulação de capital para a indústria, tal como se deu com o café no contexto paulista”. 
    Por sua vez, também, essa crise descapitalizava os setores da criação e das charqueadas, impossibilitando que a classe dominante local renovasse a estrutura produtiva para acelerar o desenvolvimento capitalista pleno no campo. Assim, a atividade produtiva centrada no setor agropecuário, frente ao baixo índice  de acumulação primitiva do capital não impunha ao Rio Grande do Sul as “características capitalistas plenamente configuradas”. 
    Além da indústria baseada na agricultura e na pecuária, apenas a indústria têxtil e a indústria alimentar têm relativo destaque, pois, no geral, suas características de produção artesanal ainda permanecem elevadas. Esta industrialização concentrava-se em Porto Alegre, Pelotas, São Leopoldo, Caxias, Rio Grande e Novo Hamburgo. Dessa forma, a pequena indústria era a predominante, não exercendo mudanças revolucionárias no desenvolvimento de forças produtivas. Assim, “o desenvolvimento industrial do estado não foi capaz de compensar a estagnação do setor agropecuário”, fazendo com que a fase ficasse conhecida como “crise da economia gaúcha”.
    Contraditoriamente, o parco capital, frente à crise gerada na agricultura e na pecuária não é investido na indústria, mas, ao contrário, o capital oriundo de atividades comerciais e industriais é aplicado para a solução dos problemas agropecuários. É nesse momento, que se terá certa  renovação e modernização do setor. 
    De forma combinada e desigual, se no centro do País a industrialização era acelerada, no sul do país a economia regional mesmo que não mudasse substancialmente, vinha aderindo a novas técnicas de produção. Isso aumentava a capitalização do estado, tanto na cidade como no campo, sobretudo devido à expansão do mercado rio-grandense.
    Mesmo que a economia continuasse centrada na atividade agropecuária, a crise desta última estimulava a expectativa de desenvolvimento do parque industrial do Rio Grande do Sul, sobretudo no ramo metalmecânico, que produzia máquinas e implementos dirigidos para as necessidades do setor primário. 

   A partir desse processo, aprofunda-se a urbanização e a industrialização, estimulando também o desenvolvimento das relações capitalistas. Como o governo de Flores da Cunha subsidiava e favorecia os grandes proprietários ligados à pecuária e à agricultura, os pequenos agricultores se uniam. Aqueles que não o faziam, acabavam perdendo suas propriedades em vista da falta de estímulo aos produtos agrícolas que tinham seu preço mínimo reduzido. Isso fazia com que muitos buscassem o caminho das cidades, a partir da criação de um mercado de trabalho na indústria manufatureira e artesanal. 
    Por outro lado, com o término do cercamento dos campos e a introdução de novas tecnologias na atividade agropecuária, no Rio Grande do Sul dos anos 1930, aceleram-se os processos de expulsão de mão-de-obra das estâncias para os centros urbanos. Com isso, passa a aumentar o contingente do proletariado sem especialização, gerando graves problemas sociais nas cidades, resultantes do desemprego, devido “a crise econômica vigente e à falta de uma maior industrialização”. 
    Além disso, sem um processo que tornasse a burguesia industrial gaúcha a classe dominante absoluta, o Rio Grande do Sul passava por uma verdadeira encruzilhada, pois ao mesmo tempo em que se buscava resolver os problemas econômicos, as contradições sociais se avolumam sem ter soluções.
    Tal realidade fez com que o proletariado urbano começasse a se organizar política, sindical e partidariamente, a fim de se enfrentar os problemas cada vez mais agravados devido à crise econômica. No entanto, tal organização restringia-se às cidades, pois, no campo os peões e o reduzido proletariado rural ainda viviam em dependência econômica, social e política dos grandes proprietários, não possuindo organização própria, impossibilitando uma maior expansão das reivindicações dos setores urbanos para as zonas agrícolas do Rio Grande do Sul.
    É desse universo social em transformação que sairá boa parte da produção literária gaúcha, nomeada como “Geração de 30”, inserida na produção modernista do romance brasileiro, também chamada de neo-realista, tendo entre eles Dyonélio Machado, Érico Veríssimo e Cyro Martins.

A Geração de 30 no Rio Grande do Sul e a Obra de Cyro Martins
    A prosa literária da década de 1930 deu continuidade ao projeto modernista, dali em diante com ênfase na literatura regionalista, abordando as desigualdades sociais do Brasil, tanto em relação à cidade como ao campo.

   Foi com A bagaceira, obra de José Américo de Almeida, publicada em 1928, que o movimento foi inaugurado mostrando a miséria do nordestino, a brutalização do sertão e as relações de exploração de patrões dobre seus empregados. A continuação dessa tradição se deu com Graciliano Ramos, autor que mostrará a desumanização do homem nordestino em São Bernardo (1934) e a fome e a miséria retirante com Vidas secas (1938). Com José Lins do Rego será retratada a decadência da sociedade rural patriarcal dos senhores de engenho do Nordeste nas obras Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), Usina (1936) e, finalmente, Fogo morto (1943), mostrando o coronel decadente e violento contraposto pelo defensor dos oprimidos. Nos romances de Rachel de Queiróz predominam a memória e a observação dos problemas sociais do Nordeste, sobretudo com João Miguel (1932), Caminho das pedras (1937), As três marias (1939). Já em Jorge Amado, através de Cacau, (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar morto (1936) e Capitães da Areia (1937), surgem na literatura outras denúncias das desigualdades sociais da região, sobretudo nesse último, quando mostra a deplorável situação de crianças abandonadas de Salvador e defende a revolução socialista.
    No Rio Grande do Sul, o chamado Romance de 30 mostrará a obra de Érico Veríssimo, através de Clarissa (1933), Música ao longe (1935) e Um lugar ao sol (1936), na qual o escritor abordará o cotidiano da vida urbana, mostrando aos leitores o universo de Porto Alegre. Já na trilogia O tempo e o vento, Veríssimo procurará, como já afirmou José Hildebrando Dacanal, “abranger globalmente no tempo e no espaço” uma das zonas agrárias, apresentando um “amplo e completo painel da formação do patriarcado rural sul-rio-grandense, ou do grupo oligárquico-rural da fronteira gaúcha”. (14)
   Com Dionélio Machado e sua obra Os ratos (1935), o Romance de 30 terá uma marca. Nela, o retrato simbólico da realidade de Porto Alegre e de como o dinheiro se torna a síntese das relações sociais capitalistas e do consumismo da cidade grande, é mostrado com toda a profundidade psicológica. Através da vida de um funcionário público, endividado e envergonhado de olhar os credores, a visão cruel da miséria urbana aparece com intensidade em toda a narrativa.
    Já em Xarqueda (1937), o baiano Pedro Rubens de Freitas Wayne (15)apresentou a situação precária dos operários saladeiris, em uma das abordagens mais paradigmáticas da vida pastoril gaúcha, marcando o Romance de 30. Como já disse Léa Masina, há neste romance uma “forte correlação entre os dados do mundo empírico e o desejo de transformar as representações sociais em literárias”, através da “criação de uma consciência crítica por parte do escritor”. Nele, o autor se permite “narrar a estória das desvalias de um fragmento específico da população do Rio Grande do Sul: os trabalhadores da indústria da carne e do charque, então principal matéria-prima a sustentar a economia do Estado”. 
    Outra obra significativa será Fronteira Agreste (1944), escrita por Ivan Pedro de Martins,  apresentando a estrutura socialmente injusta de uma fazenda de pecuária extensiva, entre Dom Pedrito e Bagé, no sudoeste do Rio Grande do Sul.
    Como já demonstrou José Hildebrando Dacanal, com Memórias do Coronel Falcão, escrita por Aureliano de Figueiredo Pinto no final da década de 1930, mas só editado em 1973, com quase cinquenta anos de atraso, teremos o elo que faltava entre a ficção sobre o campo e a cidade. Será  “a ponte entre Érico Veríssimo de O tempo e o vento – a formação, o apogeu e o início da decadência da estrutura oligárquico-rural do estado” - com “o aflorar da consciência crítica dos grupos médios urbanos de Porto Alegre”, nas obras de Dyonélio Machado e Cyro Martins. 
    Porém, foi com Cyro Martins que o regionalismo gaúcho mostrará o peão, o antigo agregado, o expulso do campo se proletarizando, com toda a sua intensidade, um tema tão atual e ainda universal.  Estudante em Porto Alegre, ele mesmo confessou que muito jovem, empolgado pela imprensa e pelos livros e pelos “discursos ruapraieiros entusiasmados sacudindo palas”, quando voltava para casa, nas férias, “na beira da estrada real, em plena campanha, os tipos que desfilavam por ali eram bem diferentes daqueles fantasiados que serviam de modelos (...) configurando um afresco da decadência e retirada que nenhuma retórica tradicionalista conseguiria encaixar numa inventiva rósea”. 
    Em outra passagem, o romancista dá o tom sobre o conteúdo da sua ficção literária: “inspirada nesse documento humano, para ser coerente com o que os meus olhos viram e o meu coração sentiu (...) teria que se apegar à verdade que gritava aos meus ouvidos (...) numa linguagem singela, largada, temperada com o sal da terra e sem nenhum ufanismo”.
    Para Tânia Carvalhal, com a “Trilogia do Gaúcho a pé”, onde um livro dá continuidade ao outro, via integração temática, Cyro Martins “desvendou o avesso de uma prática romântica, que fixara a figura do gaúcho como ‘monarca das coxilhas’, dono de suas montarias e das distâncias (...) idealização do homem rural”. Para a autora, contra essa idealização, Cyro Martins vai “contrapor uma feição mais terra-a-terra e coerente com as mudanças econômicas e sociais que passara o gaúcho, obrigado a apear do cavalo, a migrar e a enfrentar uma realidade de horizonte aberto”. 

   Para Glaucia Konrad, “o discurso regionalista tradicional  do Rio Grande do Sul e a tentativa de mantê-lo vivo” é a expressão de  uma oligarquia oriunda do latifúndio pecuário ou agrícola  em decadência.  Para a autora, “outro conteúdo teve o regionalismo  social,  exibido nas  obras  de Dyonélio Machado, Cyro Martins e  Ivan  Pedro  de Martins,  entre  outros”. Pois, “esses autores questionavam o  modelo de desenvolvimento agrário gaúcho, mostrando uma realidade decadente e a situação do homem do campo e daquele que foi expulso das suas terras, indo para a cidade e se constituindo em mão-de-obra para a indústria, com pouco ou nenhuma qualificação”. 
    Os conselheiros do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul que produziram a ata n. 1.116, no lugar de criminalizar os movimentos sociais, deveriam olhar para o processo histórico da formação social do Rio Grande do Sul. Nele poderiam ver a necessidade do fim do latifúndio, percebendo o quanto a modernização com a permanência da grande propriedade, através do agronegócio, se não for enfrentada, continuará produzindo os “gaúchos a pés”. 
    Quem sabe lendo Estrada Nova, escrito por Cyro Martins no distante 1954, veriam que estão fazendo o papel do personagem do velho Policarpo, símbolo da permanência de um tempo passado que expressa a decadência do mundo rural que insiste em permanecer, pois não consegue enxergar as transformações econômicas e os resultados sociais desse processo.

100 anos de Cyro Martins: expulsão e criminalização dos ''gaúchos a ...www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=1729&id_coluna=14