SOS LÍNGUA PORTUGUESA

SOS LÍNGUA PORTUGUESA
Tire suas dúvidas. Faça perguntas!!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

PRESENÇA FEMININA NO SIMBOLISMO


GILKA MACHADO
   Publicou seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, em 1915. Na época, já era casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado. No ano seguinte, ocorreu a publicação de sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 saiu Estados de Alma; seguiram-se Poesias, 1915/1917 (1918); Mulher Nua (1922), O Grande Amor (1928), Meu Glorioso Pecado (1928), Carne e Alma (1931). Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville. Em 1933, Gilka foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro. Foram lançadas, nas décadas seguintes, suas obras poéticas Sublimação (1938), Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1968). Suas Poesias Completas foram editadas em 1978, com reedição em 1991. Poeta simbolista, Gilka Machado produziu versos considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo. Para o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, ela “foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma”.
NASCIMENTO/MORTE
1893 - Rio de Janeiro RJ - 12 de março
1980 - Rio de Janeiro RJ - 11 de dezembro
LOCAIS DE VIDA/VIAGENS
1893/1980 - Rio de Janeiro RJ
1933 - Argentina - Viagem
1941 - Estados Unidos - Viagem
1948 - Europa - Viagem
VIDA FAMILIAR
Filiação: Hortêncio da Gama Sousa Melo, poeta, e Theresa Christina Moniz da Costa, atriz de rádio e teatro, descendente de Francisco Moniz Barreto, poeta repentista, e Francisco Pereira da Costa, violinista.
1910 - Rio de Janeiro RJ - Casamento com o poeta Rodolfo de Melo Machado. Filhos: Hélio e Eros
1923 - Rio de Janeiro RJ - Morte do marido
1976 - Morte do filho Hélio
CONTATOS/INFLUÊNCIAS
Convivência com Andrade Muricy e Tasso da Silveira.
ATIVIDADES LITERÁRIAS/CULTURAIS
1916 - Rio de Janeiro RJ - Publicação da conferência A Revelação dos Perfumes (Ed. J. Ribeiro dos Santos)
1918/1923 - Rio de Janeiro RJ - Colaboradora da Revista Souza Cruz
1932 - Cochabamba (Bolívia) - Publicação da antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville, versão para o espanhol de Reynolds (Ed. Lopez)
OUTRAS ATIVIDADES
1925c. - Rio de Janeiro RJ - Dona de pensão
HOMENAGENS/TÍTULOS/PRÊMIOS
1933 - Rio de Janeiro RJ - Eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho
1979 - Rio de Janeiro RJ - Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras
1979 - Rio de Janeiro RJ - Homenagem à mulher brasileira na pessoa de Gilka Machado, transcrita nos Anais da Assembléia Legislativa
HOMENAGENS PÓSTUMAS
1993 - Natal RN - Homenagem no V Seminário Nacional Mulher x Literatura, organizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Conferência de abertura Gilka Machado: Mulher e Poesia, por Nádia Battella Gotlib; painel Gilka Machado e as Escritoras de seu Tempo
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1893/1922 - Simbolismo
LEITURAS CRÍTICAS
  "A forma ousada dos seus versos, de um ritmo livre e bastante pessoal, harmoniza-se com a liberdade de inspiração, onde predomina um forte sensualismo, tão forte que Humberto de Campos notava-lhe nos poemas verdadeiras 'tempestades de carne'... Seus livros provocavam, simultaneamente, admiração e escândalo, já que a poetisa confessava sentir pêlos no vento', desejava penetrar o amado 'pelo olfato, assim como as espiras/invisíveis do aroma...' e declarava, sem rebuços: 'Eu sinto que nasci para o pecado." Góes, Fernando [1960]. Gilka da Costa Melo Machado. In: ___. Panorama da poesia brasileira: o pré-modernismo. v.5, p.165.

   "(...) Gilka Machado foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma. Nem sua ousadia tinha impureza, mas punha à mostra a riqueza de seus sentidos, especialmente de um pouco explorado em poesia, o tato. Sua sensibilidade é requintada, algo excêntrica, mas profundamente feminina." Ramos, Péricles Eugênio da Silva [1965]. Gilka Machado. In: ___. Poesia simbolista: antologia. p.209.

   "Se é intensiva a experiência de Gilka Machado, como poetisa e mulher reivindicadora, há outras barreiras a vencer entre a militância poética e a militância doméstica. Havia uma distância, na sua época, entre o campo da sacralidade da arte e certos aspectos da vida rotineira, que o simbolismo intensifica, o modernismo desenvolve e autoras mais contemporâneas, como Adélia Prado, consumam. Gilka Machado, a viúva do poeta Rodolfo Machado, a mulher dona de pensão que cozinhava para tantos poetas de sua época, como Tasso da Silveira e Andrade Muricy, por exemplo, enquanto fazia poesia, esta ainda habita os porões do cenário poético. Já fizera emergir dos porões, no entanto, um dos 'monstros' proibidos: o modo de representação da ansiedade erótica que delineia um projeto novo ou um novo jeito de querer ser mais mulher; e que justifica, penso eu, o considerar a poesia de Gilka Machado como precursora na luta pelos direitos de acesso à representação do prazer erótico na poesia feminina brasileira." Gotlib, Nádia Battella [1982]. Com dona Gilka Machado, Eros pede a palavra: poesia erótica feminina brasileira nos inícios do século XX. Polímica: Revista de Crítica e Criação. p.46-47.

   “Sonhei em ser útil à humanidade. Não consegui, mas fiz versos. Estou convicta de que a poesia é tão indispensável à existência como a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor". Essas palavras ecoaram pelo Rio de Janeiro, na segunda metade do século XX. Foram proferidas pela poetisa Gilka Machado, no crepúsculo de sua vida, toda dedicada à poesia. Patrona da cadeira nº 22 da AFCLAS, ocupada pela acadêmica Lydia J. de Azeredo Borges. Figura polêmica, carismática e, sobretudo, batalhadora, Gilka da Costa de Melo Machado nasceu a 12 de março de 1893, no Rio de Janeiro. Educada entre artistas, começou a fazer versos na infância, influenciada pelo poeta Hermes Fontes. Cultivou o verso livre, com estilo fortemente sensual, lançando a semente renovadora em nossa poesia. A ousadia de sua lira amorosa teve o efeito de um verdadeiro cautério, de um estímulo poderoso e salutar que, não raro, se voltou contra ela própria. Sua primeira coletânea, "Cristais Partidos", caracteriza-se por uma preocupação em ver o lado espiritual da vida. Os livros seguintes, "Estado d'Alma", "Mulher Nua" e "Meu Glorioso Pecado" são mais liberários, manifestando seu desejo de "viver somente sujeito às leis da natureza e aos caprichos do amor". Sua obra "sublimação" difere das anteriores, pela serenidade de tom, incluindo poemas de conteúdo social. Viúva aos 30 anos, lutou, arduamente, para sobreviver e educar os filhos, sem atender às soluções que repugnavam o seu pudor. Em 1965, ano do cinqüentenário de sua estréia, inseriu na antologia "Velha Poesia", grande número de inéditos que falavam de seus desenganos e na proximidade da morte. Faleceu em 12 de março de 1980.” Ana Lúcia

GILKA MACHADO - OoCitiesGILKA MACHADO 1893 - 1980. BIOGRAFIA, POESIAS. www.oocities.org/br/edterranova/gilka.htm - 21k

GILKA MACHADO: A POESIA DO DESEJO
     Gilka da Costa Melo Machado poeta fluminense(Rio de Janeiro 1893 – Idem 1980) foi uma mulher avançada em relação ao seu tempo. Como poeta, foi combatida veementemente por parte dos escritores modernistas, mormente pelo poeta, romancista e ensaísta paulista Mário de Andrade (São Paulo 1893 – Idem 1945) que a achava escandalosa. Os poemas audaciosos de Gilka desafiavam os preceitos e a conduta moral de seu tempo colocando pânico nos falsos moralistas do início do século (hoje existem muitos ainda). Seus versos falam da condição feminina, expondo de forma ousada para a época o desejo da mulher se libertar das amarras machistas daqueles tempos. Em 1933, Gilka foi eleita “A Maior Poetisa do Brasil”, por concurso da revista “O Malho”, da cidade do Rio de Janeiro. Em 1979, a escritora foi agraciada com o prêmio “Machado de Assis”, da Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa de Gilka. No início da carreira Gilka se valeu do simbolismo para escrever seus poemas. Obras principais: Cristais Partidos, 1915; Estados de Alma, 1917; “Poesias 1915 / 1918”, 1918; Mulher Nua, 1922, O Grande Amor, 1928: Meu Glorioso Pecado, 1918; Carne e Alma, 1931; Sublimação, 1928; Meu Rosto, 1947; Velha Poesia, 1968; Poesias Completas, 1978. Gilka Machado está perene dentro de nosso contexto literário, pois sua poesia é inigualável. Fiquemos, portanto, com três raríssimas jóias produzidas pelo vasto universo da mente de Gilka.

Fecundação
Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser,
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

Esboço
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...

Volúpia
Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios,
à tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.

Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.

Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.

Teu veneno letal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.
                                           Enzo Carlo Barrocco

GILKA MACHADO: A POESIA DO DESEJO19 abr. 2007 ... GILKA MACHADO: A POESIA DO DESEJO.  - www.recantodasletras.com.br/biografias/73193

A POESIA DE GILKA MACHADO: A VOLÚPIA DOS SENTIDOS
Maria do Socorro Pinheiro - Doutoranda em Litertura e Interculturalidade pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Professora Assistente da Faculdade de Educação Ciências e Letras de Iguatu (FECLI/UECE).
Resumo
   O presente trabalho tem como foco central analisar os elementos que constituem a poesia de GilkaMachado, no âmbito da forma e do conteúdo, enfocando a temática do amor – espiritualizado e erotizado,a partir das sensações. A poesia de Gilka constrói-se dentro de uma gama de complexidade, perpassandoos sentidos (visão, olfato, tato, audição, gustação) e apelo aos devaneios. Sua obra se caracterizapela presença da natureza, pelos odores, pela variedade de cores, assumindo uma forma caleidoscópicaque expressa simultaneamente misticismo e erotismo, purificação e sensualidade, vida e morte, silêncio emúsica, mistério e revelação.
Palavras-chaves: poesia, amor, sentidos.

   “Sinto pelos no vento... É a Volúpia que passa,flexuosa, a se roçar por sobre as cousas todas,como uma gata errando em seu eterno cio”.(Gilka Machado)
     O contexto histórico e social do início do século XX apresentava uma sociedade fortemente patriarcalista. Quem ousaria destronar o reinado falocêntrico? A escrita feminina se voltava para coisas suaves, um texto bem comportado, controlado, marcado pelas interdições. Uma mulher não poderia falar determinadas expressões, algo de escandaloso suscitaria ideias pecaminosas.
    Assumir um discurso não apenas sugestivo de desejos, mas revelador dos impulsos eróticos femininos notadamente seria uma atitude de rebeldia. Posto isso, só uma mulher muito ousada e corajosa falaria poeticamente dos desejos sensuais constituintes da alma feminina.
   O cenário literário brasileiro despertou com a voz poética de Gilka Machado. Poeta que nasceu em 12 de março de 1893, no Rio de Janeiro (ano que inaugura o Simbolismo brasileiro) e faleceu Interfaces ISSN 2179-0027 Vol. 3 n. 1 (jul. 2012) 24 no dia 11 de dezembro de 1980. Pertencia a uma família de tradição artística. Desde cedo conviveu com gêneros artísticos diferentes e não tardou para manifestar, ainda menina, seu talento para poesia. Casou-se em 1910, com o poeta Rodolfo de Melo Machado, conhecido pelo meio artístico e cultural da época. Dessa união, o casal teve dois filhos: Hélios, um rapaz que morreu jovem e Eros Volúsia, célebre bailarina.
    Gilka Machado estreou com a obra Cristais Partidos em 1915, influenciada por alguns poetas, sobretudo, Hermes Fontes. Em 1917, publica Estados d’alma, obra que mostrou mais completamente a natureza do seu estro. Em seguida surgiram as obras Mulher Nua, 1922, Meu Glorioso Pecado, 1928, Amores que mentiram e que passaram, 1928, Carne e Alma 1931, Sublimação, 1938, Meu Rosto 1947 e Sonetos y Poemas, 1932.
   Sua poesia apresenta laivos do parnasianismo no tocante à forma e a espiritualidade do simbolismo, com nuances do ideal romântico. Algumas autoras, como Nádia Gotlib (1982)
e Nelly Novaes Coelho (2002) afirmam que Gilka foi uma das mais importantes vozes que bradou sobre os desejos eróticos e a força dos sentidos.
   Antes dela, aqui no Brasil, surgiram alguns poucos poetas como Gregório de Matos, Castro Alves, Olavo Bilac que esboçaram amostras da poesia do desejo. Não se tem conhecimento de que alguma mulher tenha surgido antes dela com uma temática provocante e sensual. Gilka instaurou esse momento em que o pudor se afasta para as volúpias do amor, lembrando um pouco o espírito libertário de Safo.
   Pretendemos, neste trabalho, analisar os elementos poéticos constitutivos da poesia de Gilka Machado, no âmbito da forma e do conteúdo. Adentrar na forma de composição do signo poético e estudar sua estrutura, tecido de significante e de significado. Ela caminha na linha das sensações, adotando figuras imagísticas que traduzem a sensualidade de seus versos. Há uma atmosfera poética de extremada beleza, um sentimento de pureza advinda da essência das coisas e, por outro lado, a voluptuosidade aflorada, flutuante numa manifestação sugestiva de gozo “eis-me, lânguida e nua, / para volúpia tua” (MACHADO, 1991, p. 108).
Gilka Machado: uma tentativa de classificação
   A poesia de Gilka Machado surgiu num período de transição, em que muitos poetas cultivavam suas aspirações impregnadas ainda de acentos espirituais, etéreos, intuitivos. Ela se insere no Simbolismo, na sua fase mais tardia.
   O movimento simbolista surgiu na França como reação à estética parnasiana, o primado do subjetivo sobre o objetivo. Dois movimentos que tiveram o mesmo berço, o primeiro volume do Parnasse Contemporain (1866), mas divergentes em seus elementos formais e ideológicos, como atesta Afrânio Coutinho (1997). O precursor do Simbolismo foi Charles Baudelaire, com seu livro As flores do mal (1857) e ao lado dele avultam figuras importantes como Verlaine, Mallarmé, Rimbaud.
   Em Portugal, ainda no Realismo, autores como Antero de Quental, Cesário Verde, Gomes Leal e outros se inscreveram entre os antecipadores do Simbolismo Português. O movimento foi realmente inaugurado com Oaristos (1890), de Eugênio de Castro. No Brasil, o simbolismo ganhou força a partir de 1893 com as obras Missal e Broquéis de Cruz e Sousa, antes disso já havia rumores da nova estética, por meio de manifestos como a Folha Popular, do Rio de Janeiro, formado por volta de 1891. De acordo com Andrade Muricy (1973), o movimento se desenvolveu por meio de ondas sucessivas de gerações de autores, pertencentes às regiões do País. Tal movimento ideológico e poético, aqui no Brasil, se estendeu Interfaces ISSN 2179-0027 Vol. 3 n. 1 (jul. 2012) 25 até por volta de 1910, motivando alguns poetas parnasianos e mesmo autores da estética modernista.
   Sobre a classificação da produção poética  de Gilka Machado, críticos como Andrade Muricy (1973) inclui a poesia de Gilka no seu Panorama doMovimento Simbolista Brasileiro, elevando-a a categoria de maior poetisa simbolista. Péricles Eugenio da Silva Ramos (1965) em Poesia Simbolista – Antologia a coloca na segunda geração simbolista ao lado de Hermes Fontes, Ernani Rosas, Raul de Leoni, Onestaldo de Pennafort e Rodrigo Otávio Filho.
    Na obra Evolução da poesia brasileira, Gilka apareceentre as poetizas do segundo parnasianismo, com “personalidade de talento e, logo, personalidade de estilo, não sendo o seu manto de poetisa feito com os retalhos de muitas autoras” (GRIECO, 1947, p 94).
   No terreno da historiografia literária as alusões à obra de Gilka são concisas, como também os estudos. Em A Literatura no Brasil dirigida por Afrânio Coutinho (1997), Darci Damasceno lhe dedica um minúsculo parágrafo, relatando ser a poesia de Gilka um reflexo simbolista no período de transição. Alfredo Bosi (2001) não menciona a poeta na sua História Concisa da Literatura Brasileira.
     Por outro lado, Massaud Moisés comenta em uma página e meia a poesia de Gilka “a mola propulsora de sua obra é representada pelo sensualismo” (2004, p. 448). O crítico tece elogios pela “superior poesia” e diz ser “a mais autêntica e vibrante da belle époque” (2004, p. 448).
 Gilka Machado: poesia de desejos e revelações
   Como leitmotiv, encontramos na poesia de Gilka Machado o amor e a liberdade. O amor espiritualizado associado ao amor cortês que nasce com a poesia trovadoresca, no curso do século XII.
   Os trovadores adotaram o amor espiritualizado como tema maior de sua inspiração e deram-lhe caráter sublime e devocional – ‘joie d’amour’. O amor profano remete à antiguidade, surge antes do filtro cristão e no século XII, com a poesia goliárdica que exercita essa temática amorosa, eivada de elementos dionisíacos e sensuais.
   Na obra de Gilka, podemos perceber o amor espiritualizado, na sua forma essencialmente
divina, “é um amor, meu amor, desprovido das ânsias / dos prazeres carnais, efêmeros e
escassos” (MACHADO, 1991, p. 57). Amor tenro, cheio de esperança, tornando-se alvorada de luz, “é amor em que meu ser totalmente depuro” (MACHADO, 1991, p. 57). E há também o amor erotizado, com ímpetos e desejos, volúpias e carícias, “tudo quanto é macio meus ímpetos doma” (MACHADO, 1947, p. 58). Na percepção desses temas, os sentidos são acionados pelo frescor desejante do amor, “toco-a, palpo-a, acarinho o seu carnal contorno” (MACHADO, 1947, p. 58).
     O outro motivo está na liberdade, na ânsia de viver livremente, “eu quisera viver como os
passarinhos” (MACHADO, 1991, p. 113). Seus versos são voláteis, conduzidos pelo vento; o majestoso vento que Gilka sente roçar na sua epiderme “no deslize da brisa há um carinho de pluma pela minha epiderme a roçar, quando em quando” (MACHADO, 1991, p. 59). Os sons /z/ e /s/ na sua sonoridade se contrasta coma suavidade sugerida pelas palavras ‘carinho’, ‘pluma’, ‘minha epiderme’, como se pudessem mostrar pelos vocábulos a sensação do corpo ao tocar o outro. No plano do significante, destacamos o apurado gosto pela forma, visto  na organização dos versos, nos recursos sonoros, na expressividade, no uso da língua, na sintaxe, uma tessitura que marca um tipo de escrita, com refinamento estilístico e estético. Uma escrita íntima dos sentidos, que se posiciona num campo de interpretação, mostrando sua força poética, virtuosidade e talento.
    Ela explora os desejos femininos na voz da mulher. Como Gilka concebe a mulher? No lugar da mulher submissa e comportada, surgiu uma mulher que desejava ser percebida na sua sexualidade e ser livre para a vida, “eu quisera viver dentro da natureza, / sufoca-me a estreiteza / desta vida social a que me sinto presa.” (MACHADO, 1991, p. 114). Por tal comportamento, Gilka foi vista, por alguns, como ousada, e por outros, como imoral. Péricles Eugenio da Silva Ramos defende que “nem sua ousadia tinha impureza, mas punha à mostra a riqueza de seus sentidos, especialmente de um pouco explorado em poesia, o tato. Sua sensibilidade requintada, algo excêntrica, mas profundamente feminina” (1965, p. 209).
    Poesia em primeira pessoa, com formas variadas, contendo acentos cromáticos e metafóricos. Apresenta as marcas da poética simbolista no uso continuado de aliterações, “fiam finos fluidos frios”; nos vocábulos sugestivos de atmosfera etérea, como noite, mar, luar, vento, névoa; na musicalidade, nas abundante reticências, nas inversões frasais “de onde veio a voz o ouvido sonda,/ e, em vão, busca ent ender do náufrago os apelos” (MACHADO, 1947, p. 22). Nuances estilísticas literárias que acendem a poética de Gilka. Por outro lado, a temática ousada e o desejo de romper com a ordem estabelecida, nos permitem visualizar acentos modernistas, principalmente, no que diz respeitoà representação do corpo e do desejo.
   A estrutura usada por Gilka na criação de seus versos passa por elementos fonológicos – a sonoridade das palavras; semânticos – o primado dos sentidos; sintáticos – a arrumação das sequências discursivas; sem deixar de citar os recursos da entonação. Um conjunto de sinais envereda pelo discurso poético de Gilka Machado, seguido de exclamações, interrogações, reticências. Entre um verso e outro há sucessivas pausas, por meio de pontilhados, que nos sugerem alguma coisa, um artifício para que o leitor perceba certo clímax na poesia de Gilka. Uma espécie de releitura do poema sugere o pontilhado. Para e respira, o ritmo se modifica, o fôlego se refaz. Os intervalos expressos pelos pontilhados são o discurso silencioso, tornando-se forma de dizer, “o silêncio me diz muito mais, muito mais do que todos os sons: diz-me aos ouvidos da alma” (MACHADO, 1991, p. 184).
   No que se refere aos procedimentos analógicos, Gilka percorre livremente como a ave que sempre quisera ser. O sintagma rosa pela sua variedade de cores se compara a mulher “símbolo da Volúpia a excitar o Desejo”. (MACHADO, 1991, p.34). A relação entre rosa e mulher é no dizer de Bosi “enriquecimento da percepção” (2000). O sentido se recupera pelo efeito analógico e metafórico “a esses olhos, que são dois altares imáculos” (MACHADO, 1991, p. 63), olhos se assemelhando a altares.
   Ao processo discursivo da poesia de Gilka avulta a repetição ora de palavras, como olhos, voz, silêncio, verde, mar, ora de frases, andam perfumes sonambulando, olhos dos campos, galhofeiramente se servindo de procedimentos anafóricos. O signo vai e volta. A recorrência do verbum permite sua intimidade, afastando qualquer noção de obscuridade. A repetição de alguns termos vem como uma espécie de reforço para a ideia criada no discurso. No poema “impressões do gesto”, a palavra ‘danças...’ surge treze vezes, seguida das reticências, a simbolizar os passos e os gestos daquela dança indefinida.
    O uso abundante de maiúsculas, Sol, Forma, Cor, Terra, etc., evidencia aspectos simbolistas, dando um sentido absoluto. Assonâncias e aliterações se fazem presentes nos versos, “fina / neblina, / pelos espaços, / em fios frios, em fluidos traços, / passa, / perpassa, / o ar embaraça, / a luz da lua tornando baça” (MACHADO, 1991, p. Interfaces ISSN 2179-0027 Vol. 3 n. 1 (jul. 2012) 27 89), contribuindo com o efeito de musicalidade.
    Imagens sinestésicas percorrem pelos poemas, cruzando os sentidos, “ó voz que sais daquela boca / como o perfume das rosas” (MACHADO, 1991, p.60).
Gilka Machado e a poesia dos sentidos
    Em relação aos sentidos, observamos que há uma conivência, todos estão em sintonia. O olhar é uma região propícia para a construção de imagens “nele há o sabor de um licor, muito doce, que pelos olhos bebido fosse, cuja embriaguez não poderás supor” (MACHADO, 1991, p. 170).
   A poética do olhar que capta sorrateiramente expressões lascivas “por me fitares, eu sinto a
todos os instantes, que os teus olhares são como dedos: acariciantes” (MACHADO, 1991, p. 169).
    O ambiente é convidativo, espalha sedução e desejo, “vem do solo, vem do ar, vem de todos os lados, / um frio que me cerca, me procura / emprestando o calor da ânsia que me tortura / arrepios elétricos, gelados” (MACHADO, p. 55). A exploração dos sentidos revela o quadro da imaginação criadora de Gilka, composta de palpitações e desejos, evidenciando aqui e ali a questão de identidade e construção do sujeito feminino.
    Sua alma é errante povoa os descampados, as imensidões dos montes. Há uma aura misteriosa que penetra os sentidos. O entrelaçamento do gosto, cheiro, som, tato e visão atiçam sua voluptuosidade. O perfume que perturba os pensamentos, e a leva ao infinito, “os perfumes me vem” (MACHADO, 1991, p. 153), odores que lhe palpitam a alma – o embriagante sândalo; som dos gemidos, do silêncio, do mar, da canção melodiosa, “cantas e, por te ouvir, a sonhar principio” (MACHADO, 1947, p. 61); há sabor do pecado, gosto livre de teus lábios beijar, “saborei-o num beijo” (MACHADO, 1991, p. 151); o mel que se esvai em ondas comunicativas penetram pelo paladar, “há no ar um cheiro manso e meloso de cana” (MACHADO, 1991, p. 154); poesia do toque, do tato, “o meu tato se estende a todos os sentidos” (MACHADO, 1991, 150), o veneno de mel e o mortífero gosto.
   Gilka ao cantar o amor incorpora, muitas vezes, o espírito dionisíaco em que se delineia um aroma de amor pecaminoso, confessando poeticamente a sua alma em ebulição “a alma em fogo” (MACHADO, 1991, p. 271). Outras vezes, manifesta transcendência espiritual, caracterizando fortemente a presença do estilo simbolista, “tu a mim vens descendo, eu a ti vou subindo, comoo mar sobe ao céu, como o céu desce ao mar” (MACHADO, 1991, p. 179). O amor acontece num plano carnal, venusino e também espiritual, enveredando pela linha do transcendental. Polos divergentes que encontram nos sentidos faro para a liberdade – pelo prisma das sensações. Poesia cheia de sutileza e luminosidade, canto de tristeza e de alegria, dilúvio de ilusões perdidas que faz o outro ser repouso “sei que me vivo em ti” (MACHADO, 1922, p. 130). Parece que nasceu para amar eternamente ou apenas a paixão de um dia.
    Perturbações constantes e sentimento dúbio se expandem desmedidamente em seu
espírito de ‘solitária flor’. Em sua alma habita o bem e o mal, “um mal para o prazer, um bem para o pesar / um mal que delicia, um bem que faz chorar”. (MACHADO, 1922, p. 84). Dualidades que movem seu espírito insaciável e agônico, “horas do ser e do não ser”. A vida e a morte, o bem e o mal, a treva e a luz, o prazer e a dor, riso e lágrima são pares antinômicos vinculados à experiência humana, “não sei se o que sinto é prazer ou uma dor” (MACHADO, 1947, p. 193).
   Forças contrárias que comandam os sentimentos de Gilka, “há um anjo que abençoa as minhas agonias / e um demônio que ri do meu grande pesar” (MACHADO, 1991, p. 252). Apegada a essas forças, inevitavelmente transcorrem doses de amarguras e de indagações, que no íntimo quer“lavar minha alma da amargura e pô-la ao sol para secar” (MACHADO, 1991). Esse antagonismo permite que analisemos o caráter dualístico de sua poesia, “busco fora de mim o que existe somente em mim”. (MACHADO, 1947, p. 120). O tempo em sua poesia parece estar cronologicamente desfeito, sentido pela intensidade do amor vivido. Não há ontem nem amanhã, “o tempo é submergido na dupla profundeza do sonhador e do mundo” (BACHELARD, 1996).
     Gilka caminha pelos devaneios – corpo e mente adentrando em regiões de afagos. Ela sonha não o sono dos que dormem, mas o sono dos que viajam pelas matérias imaginárias. Sua alma faminta ansiava o amor “buscava-te a toda hora, nessa ânsia inexplicável dos insanos” (MACHADO, 1991, p. 157). Seu erotismo é revelado claramente, “de tal modo teu corpo ao meu corpo se alia / que chegamos agora a um só todo compor” (MACHADO, 1991, p. 265).
   Diz em seus versos que nasceu para o pecado “eu sinto que nasci para o pecado / se é pecado na terra amar o Amor” (MACHADO, 1947, p. 122). Aqui há a revelação do desejo, com tônica sensual, permeado de eroticidade “trago nas veias lírico fervor”, capaz de sentir no próprio vento o “gozo violento” (MACHADO, 1847, p. 65). Há algumas etapas do ato amoroso, o beijo é uma delas. Uma espécie de antessala para o que inevitavelmente acontecerá depois. Ideia hiperbólica de incontáveis beijos, “beija-me sempre, e mais, e muito mais!...” (MACHADO, 1991, p.102), técnica também adotada pelo poeta amoroso Catulo.
    No que diz respeito à imaginação criadora e à poética do devaneio, encontraremos em Bachelard (1990, 1996), com sua obra noturna, ligações entre a imaginação e o poema. Na poesia de Gilka há essa natureza imagística com forte presença do transcendente e do onírico, perpassando pelas áreas transdisciplinares à luz das forças imaginantes: a imaginação formal e a imaginação material de que trata o filósofo e poeta francês. Podemos atribuir os quatro elementos materiais: fogo, terra, ar e água como os hormônios da imaginação. Percebemos a presença do ar e da água em sua produção poética, como forma de expor seus desejos.
    O ar e o voo indicam a necessidade de respirar o mundo, uma ligação entre os seres. Eu respiro o que o outro respira, construo um diálogo de sobrevivência com o outro que está ao meu lado. O elemento ar na reflexão de Bachelard “parece que o ser voante ultrapassa a própria atmosfera em que voa; que um éter se oferece sempre para transcender o ar; que um absoluto completa a consciência de nossa liberdade” (1991, p. 08). O ar se aproxima da liberdade, levando Gilka a viver seus desejos. A não concretização desses impulsos está associada ao seu contexto histórico e cultural, quando não permite que a mulher se posicione como sujeito que sente e que pode e deve revelar suas próprias sensações.
     Os devaneios poéticos de Gilka se incluiriam nas imagens cósmicas imediatas tratadas por Bachelard. Vejamos esses versos: “então, por ti me abstraio, e cuido / ser toda essência, toda fluido... / e, ó devaneio singular!” (MACHADO, 1991, p.214). As palavras ‘essência’ ‘fluido’, ‘devaneio’ injetam energia e sensibilidade humana.
     O uso repetido do pronome ‘toda’ enfatiza um ser por completo. Sua poesia é rica em associações reveladoras de imagens e de impressões sensoriais, “o teu olhar/ manso, indolente/ dá-me a impressão de uma serpente,/ pelo meu corpo a se enroscar” (MACHADO, 1991, p. 169). Encontramos aqui num só movimento as sensações da visão (olhar) e do tato (enroscar).
     A poesia de Gilka cria uma comunicação com o lado espiritual da vida. A descoberta dessa região do espírito lhe permite um contato permanente com a lua, o mar, o sol, árvores, uma cumplicidade construída, notadamente, pela linguagem poética. A presença de animais como gato e serpente em alguns de seus poemas, revela a natureza simbólica que há em muitas palavras. O primeiro traz atributos associados a “liberdade, agilidade, beleza sensual e malícia feminina” (TRESIDDER, 2003, p. 158), o segundo representa a fertilidade e analogias com o órgão genital masculino. Segundo Tresidder, gato e serpente estão popularmente associados a prazer e fertilidade, nesse sentido Gilka deixa seus versos transparecerem os eflúvios do amor, “tenho flexões de gata e de serpente” (MACHADO, 1922, p.117).
Considerações finais:
   Este trabalho foi direcionado para um quadro de análise de alguns aspectos formais/ estruturais, passando pela estilística literária, com suas imagens e representações. Um conjunto de símbolos que permitem o desenvolvimento do pensamento ao nível da linguagem e de seu significado. No âmbito do conteúdo, tentamos construir sentidos em torno de uma poesia que fala sem subterfúgios sobre o sentimento feminino.
    Gilka Machado cria um discurso de interação que expõe poeticamente a necessidade que a mulher tem de dizer sobre os seus desejos. Sua revelação acontece no campo dos sentidos. Sensações variadas, emitidas pelas cores, perfumes, cheiros, afloram a imaginação do leitor diante de uma poesia que inaugura uma temática reveladora de desejos.
   A poesia de Gilka Machado se instaura à luz do barroco pela postura dilemática e agônica que assumem seus versos e do ideário romântico a quem o simbolismo é tributário, traçando uma linha aproximativa das ideias do mundo interior com o lado exterior na erotização do amor.
    Perpassa pela escrita de Gilka uma atmosfera dualística que vai delineando seus anseios não mais secretos, mas representados por um corpo que se ergue revelador das sensações, do gozo, do tato.
    Estamos diante de uma poesia desafiadora, que rompe com o legado de uma tradição de obediência, submissão e impossibilidades. Se Gilka mudou a ordem ou criou outra, uma matriz, apartir de seus anseios e sentimentos, pretendemos ainda analisar, visto que esse trabalho é apenasum esboço de uma pesquisa maior que estamosdesenvolvendo no doutorado sobre a poesia de Gilka Machado. Podemos dizer, na verdade, que a poeta transborda em seus versossensibilidade
e desejos que afloram sua sensualidade, nas fragrâncias, nas cores e na presença dos sentidos.

A poesia de Gilka Machado:
revistas.unicentro.br/index.php/revista_interfaces/article/.../1658

O EROTISMO POÉTICO DE GILKA MACHADO: UM MARCO NA LIBERAÇÃO DA MULHER
Angélica Soares - Universidade Federal do Rio de Janeiro

E que gozo sentir-me em plena liberdade,
longe do julgo atroz dos homens
e da ronda da velha sociedade.

   Os três versos, em epígrafe, publicados em 1915 no primeiro livro de poemas, Cristais partidos, já nos transmitem (como tantos outros) o pioneirismo de Gilka Machado (Rio de Janeiro, 1893-1980) na abertura de espaços contra o paradigma masculino dominante, através da criação literária.
  As imagens acima levam-nos também a repensar, em diálogo com a poesia gilkiana, o sistema super-repressivo no qual se inscreve e pelo qual se escreve a história da mulher.
   Sendo assim, pareceu-nos bastante sintomático o título Meu glorioso pecado, dado ao livro de 1928, constituído integralmente de poemas eróticos, aos quais nos dedicamos neste ensaio. Isto porque, com uma linguagem desveladora de um processo de afirmação da identidade feminina, os " – Amores – que mentiram, que passaram", se por um lado estruturam-se como conquista e vitória da mulher (daí a marcação textual de "glorioso"), por outro lado mantém os índices de repressão, aparecendo como "pecado". E, por isso, Gilka nos reconduz, obrigatoriamente, ao peso da "culpa original", impressa no texto bíblico:
   "A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligéncia, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente. Então os seus olhos abriram-se, e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si" (Génesis, 3, 6 e 7).
    Quando Deus interroga o homem, este culpa a mulher dizendo: "A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto e eu comi" (Génesis, 3, 12). E, embora a mulher se tenha dito, ao Senhor Deus, enganada pela serpente, ele impõe-lhe o castigo:
   "Multiplicarei os sofrimentos do teu parto, darás à luz com dores; teus desejos tei impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio." (Génesis, 3, 16)
    O domínio masculino passa a se justificar e a ser vivenciado pela mulher cristã como castigo pelo pecado, que envolve culpa e sexo. Acrescente-se a isso a garantia da supremacia do homem pelo ato de criação que, em várias versões da Bíblia, apresenta a mulher surgida de uma costela de Adão.
     A "moral sexual cristã" veio historicamente sustentando a negatividade do prazer físico e da sexualidade e, conforme nos relata Foucault, veio enfatizando, embora já objeto da "moral sexual do paganismo antigo", "a proibição do incesto, a dominação masculina e a sujeição da mulher". A estrutura familiar patriarcal, por sua vez, reproduziu essa situação. E, ainda nas lições de Foucault, vemos que o poder, o saber e o prazer sempre estiveram juntos; "que as relações de poder não se encontram em relação de exterioridade com respeito a outros tipos de relações (processos econômicos, relações de conhecimentos, relações sexuais) mas lhe são imanentes"; e que:
   "Nas relações de poder, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade: utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de ponto de apoio, de articulação às mais variadas estratégias."
    Diferentes mecanismos de dominação uniram a sexualidade feminina simplesmente à procriação e reservaram para a mulher uma função exclusivamente materna, retendo-a no espaço doméstico e, como figura secundária, vivendo à margem do processo, sem autonomia para traçar os seus caminhos – realidade também impressa poeticamente por Gilka Machado, em seu primeiro livro:

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida: a liberdade e o amor;
tentar da glória a etéreae altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida trsite, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e oh! Atroz, tantálica tristeza!
Ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

     O poema constrói-se com base na antítese entre o desejo de liberdade da mulher e a prisão que lhe oferece a sociedade machista; entre a busca da completude no "companheiro" e o encontro da sustentação da incompletude, na figura de "um Senhor" (dono, proprietário, amo, patrão, repressor e agente do isolamento).
    Embora ainda ligado à idealista matriz romântica (principalmente nas imagens do "infinito" e na retórica sentimental e exclamativa), os versos trazem, em imagens vigorosas, a crítica social.
    A situação de dependéncia e o sentido de punição, caracterizadores da realidade que se oferece à mulher, são enfatizados pelo jogo das aliterações de "... atroz, tantálica tristeza", jogo que ressalta a opção poética pela imagem rara, como forma de melhor simbolizar a impossibilidade de realização feminina, na referéncia mítica a Tântalo.
   "... cujo suplício, por haver roubado os manjares dos deuses para dá-los a conhecer aos homens, era estar perto da água, que se afastava quando tentava bebé-la, e sob as árvores que encolhiam os ramos quando tentava colher os frutos."
      Gilka Machado parece-nos querer mostrar nas entrelinhas que, além da auto-repressão (interna) resultante da ação do superego, auto-repressão que caracteriza o psiquismo humano (conforme postulou Freud), além dos efeitos de uma repressão externa, imposta a todos pelo conjunto de preceitos religiosos e sócio-econômicos; a mulher sofre ainda uma carga repressiva maior, pelo fato de que as leis sempre foram feitas pelo homem.
     Lembra-nos Lúcia Castello Branco que o elemento feminino, impulsionado pelo vigor de Eros, ameaça sempre veladamente a ordem social, remetendo essa referéncia ao discurso de Aristófanes, no Banquete, de Platão, ao narrar a partição dos andróginos:
    "Dos seres bipartidos de Aristófanes, a mulher foi aquele que conservou maior parentesco com sua situação anterior de androginia. Durante a gestação, a mulher revive, ainda que temporariamente, a totalidade que lhe foi roubada por Zeus: é completa e "redonda" como os seres originais de Aristófanes. Alem disso, a gestação lhe permite o contato íntimo com a origem e, paradoxalmente, com a morte: é somente através da "morte" do óvulo e do espermatozóide que se origina nova vida; é somente através da "morte" de seu estado de completude que o filho pode nascer. A mulher carrega, portanto, a capacidade natural de experienciar a totalidade e a fusão com o universo e de viver temporariamente sob os desígnios de Eros."
     Não devemos nos esquecer também, conforme nos adverte Marcuse, de que "... no mundo de Prometeu, Pandora, o princípio feminino, sexualidade e prazer, surge como maldição – desintegradora, destrutiva" –, observação que reflete, simbolicamente, a depreciação, pela sociedade patriarcal, da capacidade construtiva da mulher, como forma, entre outras, de defesa de um espaço, que o homem sempre quis reservar para si próprio – estratégia de manutenção do seu domínio.
     Com a crescente participação da mulher no trabalho assalariado e em outros setores da vida pública (decorréncia da expansão das chamadas liberdades burguesas), ela vem, no entanto, progressivamente conscientizando-se de sua própria força; o que se dá, simultaneamente, pela progressiva descoberta de uma nova relação com o corpo e com o prazer. Essa simultaneidade fica mais clara quando compreendemos, com Bataille, que, pelo erotismo se transforma a atividade meramente sexual (esta concernente a todo animal) em "uma busca psicológica", em um momento de questionamento do ser, configurando-se, assim, o erotismo, como um aspecto da vida interior do ser humano, que é sempre vivenciado como transgressão e como uma experiéncia de crescimento e enriquecimento.
   No exercício erótico de sobreposição da transgressão à proibição, a mulher vai investir, fortemente, na busca de constituição de sua identidade. Isto porque, como já tivemos oportunidade de ressaltar, "O autoconhecimento (erótico) leva ao conhecimento do outro e do mundo e à consciéncia do poder de transformá-lo com vontade própria". Assim, a ruptura com o modelo dominante (da superioridade do masculino), ao se dar no espaço da experiéncia erótica (no direito ao prazer e não na obrigação de procriar), dá-se também no espaço social (na ação da mulher, enquanto construtora da sociedade).
    A libertação do corpo feminino vem agenciando uma liberação da linguagem. A transmissão poética do erotismo feminino, através de uma percepção também feminina, vem-se impondo como uma manifestação da face contestadora da literatura. Poeticidade e emancipação feminina, poesia erótica e denúncia social tém-se associado, "no projeto de construção individual e social da mulher, des-mitificando o condicionamento redutor", projeto fortemente alicerçado, no Brasil, por Gilka Machado, de cuja obra, a partir daqui, ressaltaremos Meu glorioso pecado, conforme anunciamos no início deste ensaio quando, motivados pelo título, decidimos antecipar em diálogo com a poetisa, algumas observações teóricas.
   No poema de abertura do livro já se configuram, nitidamente, imagens da conexão erótica, da fusão dos corpos e o forte desejo de conhecimento, aparecendo-nos este desejo como inquietações próprias de um "eu" feminino, desafiado ainda pela presença incógnita do outro:

Quem és tu que me vens, trajando a fantasia
do meu sonho sonhado em vinte anos de dor?!

Quem és tu cujo olhar de chama desafia
todo o meu raciocínio e todo meu poder?!

De tal modo teu corpo ao meu corpo se alia,
que chegamos agora a um só todo compor;

e em vão te olho do rosto a máscara sombria,
na ânsia de te sentir a verdade interior.

Quem és tu? – nada sei! Nesta paixão de um dia.
As eterizações do ambiente embriagador,

perco-me a te buscar, numa doce agonia...
Quem me dera, nesta hora, a ti mesmo transpor,

e ver, de ti no fundo, esse alguém que me espia,
dentro do carnaval desta noite de amor!...

    De início convém ressaltar, na primeira estrofe, a presença de um dos sinais anunciadores do erotismo mais valorizados no discurso poético gilkiano: o "olhar"; aqui aparecendo como símbolo do desafio vivido pelo "eu", para conhecer a "verdade interior" do parceiro, que se mostra através de uma "máscara sombria". É nítida, portanto, a busca de conhecimento de si mesmo e do outro que integra a atividade erótica. E também por isso vem sendo o erotismo tão explorado na poesia de autoria feminina, em nossos dias.
     A segunda estrofe, mantendo o posicionamento da primeira, ressalta o desejo de completude e unidade caracterizador da atuação de Eros e negado à mulher, como forma de controle social.
     Para além do caráter individualizador da cena amorosa poematizada, os dois tercetos finais do poema remetem-nos para a ânsia de "transpor/e ver..." ações fundamentais no feminismo nascente.
     Do soneto seguinte, assomam, principalmente, dois ângulos da questão feminina. Ainda se marca textualmente a superioridade masculina, porém já se projeta a consciéncia das potencialidades femininas reprimidas – um pequeno avanço, embora apoiado em idealizações:

Mal assomou à minha ansiosa vista
o teu perfil que invoca o dos rajás
senti-me mais mulher e mais artista,
com requintes de sonhos orientais,

Do teu amor à espléndida conquista,
minha carne e minha alma são rivais:
far-me-hei a sempre inédita, a imprevista,
para que cada vez me queiras mais.

Feitas de sensações extraordinárias,
aguardam-te em meu ser mulheres várias,
para teu gozo, para teu festim.

Serás como os sultões do velho oriente,
só meu, possuindo, simultaneamente,
as mulheres ideais que tenho em mim...

    A possibilidade de ser "mais mulher", através de uma maior exploração dos sentidos, nos aparece como o eixo condutor das imagens do poema.
     Não apenas ser conquistada, já é uma mudança de ponto de vista. A fragilidade desse projeto se enuncia, no entanto, quando o "gozo" e o "festim" são tão-somente ofertados ao homem (veja o possessivo "teu") e não textualizados como experiéncia compartilhada. O "serás... só meu" se vé enfraquecido, pelo fato de que o parceiro mantém os direitos do possuidor.
    Se por um lado a mulher procura libertar as suas múltiplas faces no ato da conquista amorosa ("aguardam-te em meu ser mulheres várias"), por outro lado guarda os traços da submissão ("Para teu gozo, para teu festim"). Habituada à sujeição masculina e à obediéncia aos ideais de castidade, o fazer-se "sempre inédita" e "imprevista" pode hoje ser lido por nós como um contraditório avanço. Daí, tantas vezes, em que o erotismo se registra poeticamente por formas mais audaciosas, ele se apresentar em sonho. E não é este, segundo Freud, "a realização de desejo... sob a dominância do princípio do prazer..."? Vejamos como essa atitude se estrutura liricamente em um trecho do poema "Há lá por fora um luar:

(...) Não é noite nem dia,observo, com surpresa,
uma triste alegria
em toda a natureza
medita bem que paradoxo no ar,
que dolorosa orgia
em que a alma peca com vontade de chorar!
Em que há quanto prazer, em que há tortura quanta,
em que, sem te possuir, sou toda tua...
O meu amor por ti é uma noite de lua
misto de ódio e paixão com que repilo e quero
todo o teu ser do modo mais sincero,fugindo-te e sonhando, a cada instante,palpitante de gozo
meu corpo amado e amante
ao teu abraço cálido e nervoso.

     Alicerçadas no romântico emblematismo da natureza, as imagens desenham uma mulher dividida entre o desejo e a sua rejeição. Por isso, como "em toda a natureza", ela localiza em si mesma uma "dolorosa orgia", que reúne, contraditoriamente, o "prazer" e a "tortura", a "alegria" e a "tristeza", o "ódio" e a "paixão". Por isso, também, é no sonho que ela ousa viver as palpitações do "gozo" e a participação ativa do seu corpo "amado e amante". Fica, entretanto, nas origens daquela divisão, o sentido do pecado, a que Gilka Machado refere-se, explicitamente, no sétimo verso citado.
     A consciéncia poética da sofrida divisão se constrói mais fortemente em:

A que buscas em mim, que vive em meio
de nós, e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai, de onde me veio,
trago-o no sangue assim como uma tara.

Dou-te a carne que sou... mas teu anseio
fora possuí-la – a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar ao mundo alheio,
essa que tão somente astros encara.

Porque não sou como as demais mulheres?
sinto que, me possuindo, em mim preferes
aquela que é o meu íntimo avantesma...

E, ó meu amor, que ciúme dessa estranha,
dessa rival que os dias me acompanha,
para ruína gloriosa de mim mesma!

    Numa sociedade que tem, como um dos pilares, a dessexualização da mulher, com a experiéncia da castidade e ataque aos comportamentos considerados imorais, é perfeitamente inteligível que a carne e o espírito não se conciliem. E que, como vimos poetizados acima, os desejos do corpo feminino sejam observados, sentidos e tratados como "tara".
    O poema imprime, com nitidez, uma supervalorização do espírito, ressaltando-se, na segunda estrofe, a figura da mulher ideal, moldada pelo patriarcalismo: a que só deve ter olhos para as coisas do céu, deixando que, na terra, decida e governe o homem.
    O fato de não corresponder ao modelo machista aparece, então, como "ruína gloriosa", que liga, mais uma vez, paradoxalmente, os sentidos de vitórias e derrotas, avanços e recuos da mulher, na luta pela constituição de sua identidade.
   Em vários outros momentos, porém, o discurso poético traz-nos a assunção, sem restrições, de um "erotismo ardente", vivido ativamente pela mulher.

Embora dos teus lábios afastada
(Que importa? – tua boca está vazia...)
Beijo esses beijos com que fui beijada,
Beijo teus lábios, numa nova orgia.

Inda conservo a carne deliciada
pela tua carícia que mordia,
que me enflorava a pele, pois,
em cada beijo dos teus uma saudade abria.

Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:
Guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,
numa volúpia imorredoura e louca.

Em teus momentos de lubricidade,
beijarias outros lábios, com saudade
dos beijos que roubei de tua boca.

     Aí, não mais se leva em conta a aprovação da sociedade nem, como no poema anterior, o que o parceiro repressor espera ou não da mulher; textualizando-se, então, o intenso gozo experimentado por ela, com todo o transbordamento, o desequilíbrio e a desordem, caracterizadores da paixão. E não falta, sequer, a inscrição da volúpia, favorecida pelo esgotamento, na vivéncia do excesso.
    A figura feminina, tantas vezes submissa e arrependida de uma pequena ousadia, é agora substituída por outra, que sabe o que quer e age por vontade própria.
    Gilka Machado já projeta nos seus versos, apesar dos preconceitos de toda ordem, uma nova mulher, capaz de deixar, no parceiro, as marcas de sua passagem. E é importante notar a mudança de perspectiva, ao apresentar-nos ela o homem como objeto de desejo. Vejamos um exemplo:

(...)
Teus cabelos embriagam-me o desejo
e são tão úmidos e doces
como favos de mel para meu beijo.

(...)
Dá-me tua cabeça e me persuade,
tendo-a, que tenho nos meus braços presa
a carne flâmea da Felicidade!

pois se no teu cabelo as mãos deponho,
sinto nele palpitar, entre meus dedos,
a plumagem das asas do meu Sonho.

     Merece destaque, no trecho selecionado, o fato de estar ligada a imagem da realização erótica à vivéncia da liberdade (na simbologia das "asas" do "sonho"); ligação bastante sintomática, quando nos reportamos ao fato de que as restrições impostas à mulher pelas correlações de forças repressivas foram sempre feitas, principalmente, a partir de um controle do corpo e suas sensações. É ainda, por isso, também muito significativo que a "Felicidade" (grafada com maiúscula) se apresente corporificada e chamejante ("a carne flâmea da Felicidade!") a remeter para o clímax do erotismo.
    A entrega total da mulher à prática amorosa e à fruição dos prazeres, que constituem os momentos de maior liberação no discurso gilkiano, ganham grande intensidade literária, ao se constituírem através da recriação da comunhão cósmica, que elimina os limites entre o ser humano e a natureza, como no último terceto de:

Beijas-me tanto, de uma tal maneira,
boca do meu Amor, linda assassina,
que não sei definir, por mais que o queira,
teu beijo que entontece e que alucina!

Busco senti-lo, de alma e corpo, inteira,
e todo o senso aos lábios meus se inclina:
morre-me a boca, presa da tonteira
do teu carinho feito de morfina.

Beijas-me e de mim mesma vou fugindo,
e de ti mesmo sofro a imensa falta;
no vasto vôo de um delíquio infindo...

Beijas-me e todo o corpo meu gorjeia,
e toda me suponho uma árvore alta,
cantando aos céus, de passarinhos cheia...

     As imagens gilkianas, ao unirem "alma e corpo" e ao registrarem a derrota da razão pela emoção, nos remetem, mais uma vez, para as lições de Georges Bataille: a conexão erótica, que não pode ser confundida com a busca animal da reprodução, é uma experiéncia do espírito, provocada pela matéria humana, pela carne, através de libertação dos órgãos pletóricos:
     "(...) cujos cegos movimentos prosseguem para lá da vontade reflectida dos amantes. A essa vontade reflectida sucedem-se os movimentos animais dos órgãos entumecidos. Uma violéncia, que a razão já não controla, anima esses órgãos, conduzindo-os ao orgasmo e à imensa alegria de ceder à força dessa tempestade."
       Inscritos nos versos, o excesso e o transbordamento, aos quais conduz o erotismo, já não configuram a carne com inimigo, o que ocorre sempre que se é obcecado pela proibição cristã. A escrita literária, centrada na vivéncia da liberação do corpo feminino, aponta, então, para um dos caminhos de construção da identidade e de afirmação social da mulher: o caminho da fruição do prazer, como forma de descobrir-se e de descobrir o mundo, fortalecida pelo respeito à sua individualidade e à igualdade de direitos. Esta igualdade já se estrutura, quando a mulher é recriada por Gilka Machado como amada e amante (veja o poema antes abordado: "Há lá por fora um luar"). E bem pode ser a responsável pela visualização do homem e da mulher através de uma mesma metáfora. A imagem da "árvore", por exemplo, do poema citado anteriormente, retorna para a figuração masculina:

Meu amor, como sofro a volúpia da terra,
atravessada pelas raízes!...

É s minha árvore linda,
aos céus abrindo as asas de esperança,
na gloriosa ascensão da mocidade.

Ninguém compreenderá a delícia secreta
das nossas núpcias profundas.

Quanto mais avultares, mais subires,
mais mergulhares em mim.

Aguardei-te longos anos,
com a mesma avidez da gleba pela semente...

tive-te em minhas entranhas, transfigurei-te:
és folha, és flor, és fruto, és agasalho, és sombra...

Mas vem do meu querer inviso e obscuro,
quanto prodigalizas ao desejo
dos que te gozam pela rama.
     
    A metaforização telúrica, que sustenta a construção do poema, começa por compor a imagem do gozo feminino e prossegue desenhando a figura do amante, na qual se ressaltam não só a beleza  
     A terceira estrofe remete-nos para a indicação batalliana da abertura para a continuidade, no erotismo, através de "comportamentos secretos que nos dão o sentimento da obscenidade", entendida esta como uma "perturbação que tranforma um estado dos corpos conforme a posse de nós por nós mesmos, à posse da individualidade durável e afirmada."
     No poema, esse aspecto do erotismo se projeta na imagem da "delícia secreta", que se realiza pela vivéncia do esbanjamento o qual, na última estrofe do trecho citado do poema, guarda a marca do excesso, mobilizador de Eros.
    O querer mais dos amantes é também a referéncia implícita na quarta estrofe, referéncia estruturada no jogo dialético entre elevação e penetração. Amplia-se a intensidade do gozo, ao se ampliar o afastamento entre os corpos, uma vez que este afastamento será promotor de um mergulho mais profundo, de uma conexão mais completa.
     Outra marca gilkiana, que nos exige registro crítico, é a aproximação entre o exercício erótico e o fazer poético. No poema a seguir, essa aproximação agencia o trabalho, com um elemento-imagem comum a ambos: a "língua", enquanto fonte de prazer e de poesia, ora "sensação", ora "idéia".

Lépida e leve,
em teu labor que, de
expressões à míngua,

o verso não descreve...
lépida e leve,
guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.

É s tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo
o vocábulo, ao teu contato de veludo.

Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra
ódio, paixão, engano, desengano,
por ti que incéndio no Universo lavra!...

É s o réptil que voa
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de teu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato
te hão deixado o louvor, a exaltação!

– Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!

– Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
(...)
Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.

Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...

(...)
Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
Amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases que proferes
nos silêncios de Amor!...

     Com apoio em forte recorréncia sonora (o poema se constrói através de aliterações e rimas), vai-se estruturando musicalmente o erotismo, ao mesmo tempo em que se inscreve, nos versos, a autoconsciéncia do trabalho terário, interando-se o prazer de sentir e o prazer de construir.
     Esses prazeres, atiçando todos os sentidos, começam por fazer confundir, na imagem central do poema, a "língua", ora o paladar e o tato ("gostos de afago e afagos de sabor"), ora o tato e a audição ("Sol dos ouvidos", "sabiá do tato"). Em sua configuração, são também convocados, isoladamente, o táctil ("tateio de alucinação") e o visual ("réptil que voa") ou, simultaneamente, o visual e o auditivo (rítmica serpente" e "carne de som"). Com essa simultaneidade, intensifica-se a tensão entre a consciéncia terária do erotismo e a consciéncia erótica do terário, aparecendo a "língua", no poema, como elemento criador dessa tensão, uma vez que é responsável tanto por "formosos poemas", quanto por "carícias supremas".
     Possuidora de todos os sentidos, a "língua" detém ainda o poder de transmitir sentimentos opostos ("ódio, paixão, engano, desengano"), quer no contato físico, quer na omissão da palavra.
    Na sexta estrofe citada, intensifica-se a reflexao sobre o ato de criar poesia, ressaltando-se, aí, o poder de sedução da palavra e a confecção do texto como um tecido, que deve ter a perfeição da teia de "habidosa aranha", para isso resultando de um total envolvimento do criador com a coisa criada, de uma relação amorosa do poeta com o poema. E é importante observar que, no ato de confundir-se com a palavra, a mulher, através do "eu" do discurso, projeta-se como "frase", capaz, portanto, de comunicar-se inteira, de ter um sentido completo. Parece-nos essa referéncia estar gada, sutilmente, à marcação explícita do feminino, integrante da última estrofe transcrita ("amo-te como todas as mulheres"), unindo-se, assim, o "eu" do discurso ao de todas as mulheres, gadas por uma causa comum: o direito de desfrutar, como todos os homens, inteiramente, do prazer, o direito de ser "frase" e não fragmento desta.
     A poesia aparece também erotizada em Meu glorioso pecado, quando o elemento privilegiado do prazer são as "mãos", ao fazerem "vibrar", na "pele nua", "inéditos poemas":

Meu corpo todo, no silêncio lento
em que me acaricias,
meu corpo todo, às tuas mãos macias,
é um bárbaro instrumento
que se volatiza em melodias...
e, então, suponho,
à orquestral harmonia de meu ser,
que teu grandioso sonho
diga, em mim, o que dizes, sem dizer.

Tuas mãos acordam ruídos
na minha carne, nota a nota, frase a frase;
colada a ti, dentro em teu sangue quase,
sinto a expressão desses indefinidos
silêncios da alma tua,
a poesia que tens nos lábios presa,
teu inédito poema de tristeza,
vibrar,
cantar,
na minha pele nua.

     Aproximando, mais uma vez, a experiéncia do erotismo a uma realização musical (como em "Lépida e leve"), o poema liga a imagem da criação literária à da vivéncia da liberdade erótica. E valoriza, em ambas, a linguagem dos corpos e o "silêncio", como o não dizer para dizer mais.
     A ligação dos corpos e a participação da alma favorecem a expressão e ampliam o "vibrar" e o "cantar" da pele – ações que se complementam na opção poética de vida, textualizada. Essa opção é, antes de tudo, a da saída do isolamento e da busca de continuidade no outro; o que é favorecido pela ação de desnudar-se. A "pele nua" é a imagem da nudez dos corpos, mas é também e sobretudo a do desnudamento psicológico e existencial, a da abertura do ser, na vivéncia do "ser com", identificador da humanidade, que só se realiza, plenamente, no existir compartilhado.
     Essas reflexões sobre o fazer poético aliadas à temática erótica revelam, na poesia de Gilka Machado, a constituição da consciéncia crítica voltada não só para o ato de produzir versos, mas também para a construção da identidade da mulher que, pela livre fruição do prazer, dá um passo importante para a sua emancipação.
    Meu glorioso pecado, como procuramos mostrar, embora ainda marcado pelo paradoxo entre a conquista da liberdade feminina e a permanéncia da submissão (contradição já indiciada no próprio título do livro), em muitos momentos aponta para uma nova mulher, capaz de sobrepor a transgressão à proibição, a fim de uma vivéncia real do erotismo e socialmente mais justa.
     Gilka Machado, como poucas poetisas de sua época, faz da liberdade de expressão uma forma de libertar-se e de libertar a mulher, pela conscientização erótica, impressa, ousadamente, no verso. Revisitá-la, hoje, torna-se imprescindível, se quisermos investigar as limitações e os avanços do tema do erotismo na produção literária de autoria feminina, bem como reconstruir a caminhada da mulher, na luta pela emancipação.

O erotismo poético de Gilka Machado: um marco - Literatura e Cultura www.litcult.net/revistamulheres_vol4.php?id=335