SOS LÍNGUA PORTUGUESA

SOS LÍNGUA PORTUGUESA
Tire suas dúvidas. Faça perguntas!!

domingo, 29 de abril de 2012

TROVADORISMO: CICLO CLÁSSICO - ALEXANDRE O GRANDE (2)


 Alexandros III Philippou Makedonon (356-323 B.C.)

  Alexandre, o Grande,  estava destinado à grandeza quase desde o momento que nasceu em 356 a.C no palácio de Pela, Macedônia. Embora a data exata do seu nascimento não seja confirmada (20 de julho é a mais aceita), as lendas contam que nesse dia o templo de Artemisa se incendiou — Um sinal de que Alexandre cresceria para a grandeza. 
 Filho do rei Filipe II e da rainha Olímpia, princesa do Épiro, cedo se destacou como um rapaz inteligente e intrépido.

Curiosidades
   Quando tinha 13 anos, seu pai incumbiu um dos homens mais sábios da sua época, Aristóteles, de educá-lo. Alexandre aprendeu as mais variadas disciplinas: retórica, política, matemática, ciências físicas e naturais, medicina e geografia, ao mesmo tempo em que se interessava pela história grega e pela obra de autores como Eurípides e Píndaro. Também se distinguiu nas artes marciais e na doma de cavalos, de tal forma que em poucas horas dominou Bucéfalo, que viria a ser sua inseparável montaria.  
    O jovem príncipe também gostava, particularmente, de ler os trabalhos de Homero. De fato, ele adorava tanto a Ilíada que adotou Aquiles como seu exemplo de vida. 
    Apesar do apelido dado por causa da grandeza de suas conquistas, media apenas 1,52m.
  Tendo por mãe uma princesa epirana, Alexandre acreditava ser descendente de Aquiles que foi cultuado como um deus e um dos grandes personagens da batalha em Troia.
  Com apenas 16 anos, já se encarregava das colônias quando o Rei Filipe estava de viagem. Nesta mesma época, fundou sua própria colônia, Alexandroupolis.
   Na arte da guerra recebeu lições do pai, militar experiente e corajoso, que lhe transmitiu conhecimentos de estratégia e lhe inculcou dotes de comando. O enérgico e bravo jovem teve oportunidade de demonstrar seu valor aos 18 anos, quando, no comando de um esquadrão de cavalaria, venceu o batalhão sagrado de Tebas na batalha de Queronéia, em 338 a. C. Alexandre destacou-se nesta batalha, comandando a cavalaria macedônia.
   Em 337 a.C., Filipe II casou-se com uma jovem chamada Cleópatra, sobrinha de Átalo, nobre importante macedônio. Olímpia ficou assim preterida e se exilou no Épiro com seu filho Alexandre, pois este entrara em conflito com seu pai. Só em 336 a.C. é que Alexandre se reconciliou com Filipe II e voltou à Macedônia.
   Alexandre tinha uma irmã também chamada Cleópatra (356-308 a.c), filha de Olímpia e do rei Filipe. A irmã se casou com o meio irmão de Olímpia, Alexandre de Épiro. Durante as festividades, o pai da noiva, rei Felipe, foi assassinado por Pausânias, em 336 a.C. O criminoso foi capturado e morto imediatamente. Há suspeitas que o mandante tenha sido o rei persa ou, quem sabe, por vingança da esposa Olímpia. Há a suspeita também de que Alexandre conhecia o plano para eliminar o pai.  
   A segunda esposa do pai de Alexandre  foi forçada a cometer suicídio e seu filho com  Filipe foi morto.
    Depois do assassinato de seu pai , Alexandre, com 20 anos, subiu ao trono da  Macedônia e se dispôs a iniciar a expansão territorial do reino. Para tão árdua empresa, contou com poderoso e organizado exército, dividido em infantaria, cuja principal arma era a sarissa (lança de 5,5 metros de comprimento), máquinas de guerra (como catapultas, aríetes e as balistas)  e cavalaria, que constituíaM a base do ataque.  

O início das suas conquistas
   Imediatamente depois de subir ao trono, Alexandre enfrentou uma sublevação de várias cidades gregas e as incursões realizadas no norte de seu reino pelos trácios e ilírios, aos quais logo dominou. Em contrapartida, na Grécia, a cidade de Tebas opôs grande resistência, o que o obrigou a um violento ataque no qual morreram milhares de tebanos.
  Pacificada a Grécia, o jovem rei elaborou seu mais ambicioso projeto: a conquista do império persa, a mais assombrosa campanha da antiguidade. 
   Em 334, cruzando o Helesponto, Alexandre penetrou na Ásia Menor, visitou as ruínas de Troia, em memória de Aquiles, o seu herói preferido.
  Avançou até o rio Granico, onde enfrentou os persas pela primeira vez e alcançou importante vitória. Prosseguiu triunfante, arrebatando cidades aos persas, até chegar a Górdia, onde cortou com a espada o "nó górdio", o que, segundo a lenda, lhe assegurava o domínio da Ásia.
   Ante o irresistível avanço de Alexandre, o rei dos persas, Dario III, foi a seu encontro. Na batalha de Isso (333) consumou-se a derrota dos persas. A família de Dario - sua mãe, sua esposa, duas filhas e um filho caiu prisioneira de Alexandre, assim como o enorme tesouro que o rei persa levara para Damasco. Alexandre tratou toda a família com respeito. Dario fugiu com o que resta de seu exército. Assim se deu o inicio do ocaso do grande império.
    Depois de vencer o rei persa na Ásia Menor, Alexandre se empreendeu na conquista  das cidades fenícias (332 a. C.). A cidade na ilhota de Tiro se recusou e por isso o rei macedônio assediou-a e começou a construir uma ponte flutuante com 60 metros de largura, desde a praia até a ilha. numa distancia de 780 metros. Ele usou os escombros da velha cidade de Tiro, limpando completamente o terreno, para fazer sua "estrada", levando-a até a cidade na ilha de modo que ela é hoje uma península.. Depois de um cerco de sete meses, ele tomou a cidade. Sua fúria contra os tírios foi grande; ele matou 8.000 dos habitantes e vendeu outros 30.000 para a escravidão , inclusive mulheres e crianças. 
    A cidade de Gaza, no sul da Palestina, foi a próxima a ser sitiada e caiu após 2 meses de cerco. Após essas grandes conquistas o rei macedônio  viajou para o Egito com o seu temido exército.
    O sonho de Alexandre, de unir a cultura oriental à ocidental, começou a concretizar-se. Os detalhes dessa viagem ao Egito, realizada em 331 a.C., foram preservados por Estrabão em sua Geografia. Depois de derrotar Dario III, dedicou-se à conquista de todos os portos com importância estratégica nos litorais da Síria e da Palestina. O passo seguinte foi ocupar o Egito, sob o domínio persa desde 525 a.C., quando o rei Cambises, filho de Ciro o invadiu.
     Diferente dos persas, Alexandre fez uma campanha pacífica, sem grandes derramamentos de sangue, encerrada rapidamente quando o sátrapa (governador colonial) persa rendeu-se, sem luta, em Mênfis. Diz a lenda que o principal objetivo de Alexandre ao invadir o Egito era garantir seu acesso ao oráculo que profetizava em um oásis no interior do Deserto Ocidental.  O rei da Macedônia iniciou um processo pessoal de orientalização ao tomar contato com a civilização egípcia. Respeitou os antigos cultos aos deuses egípcios, ao contrário dos antigos reis persas, e até se apresentou no santuário do oásis de Siwa.

 Influência de Alexandre no Egito
    Quando Alexandre, O Grande, entrou no Egito, iniciou-se uma nova dinastia de faraós gregos. A dinastia ptolemaica surgiu após a morte de Alexandre, com Ptolomeu I, homem de confiança de Alexandre, sendo o precursor. Essa dinastia, que durou 300 anos, deu origem à famosa Cleópatra VII, que perdeu o poder para os romanos. Isso fez com que a era dos faraós terminasse no Egito. Os romanos então ocuparam o Egito, que fez parte do Império do Oriente até a conquista árabe, quando o poder passou aos mamelucos. A expedição francesa ao Egito, comandada por Napoleão Bonaparte durou de 1798 até 1801. Nessa expedição foi encontrada a famosa Pedra de Roseta que foi a base para a decifração dos Hieróglifos
        
O Oráculo de Siwa 
   Inspirado no  deus Amon-Zeus-Júpiter, que manifestava-se através de seus sacerdotes.  a palavra oráculo designava tanto o local onde eram feitas profecias ou adivinhações quanto as pessoas que as faziam. Tais pessoas seriam inspiradas por uma entidade identificada com um local definido – como Delfos, na Grécia, ou Siwa, no Egito. Isso porque se acreditava que curas, tratamentos terapêuticos, profecias e adivinhações podiam ser induzidos por meio de um processo conhecido como “incubação”. Os consulentes eram levados a passar por um retiro no templo do oráculo, meditando e dormindo ali para que mensagens fossem transmitidas pelos deuses através de sonhos ou de visões proporcionadas pelas forças tectônicas (chtonian), que segundo a mitologia, governam o mundo subterrâneo e podem ser invocadas por sacerdotes iniciados nos rituais e encantamentos necessários.   
    No caso da visita de Alexandre a Siwa, o procedimento parece ter sido um tanto fora do comum, o que pode ser explicado pela importância do visitante. Calistenes, historiador oficial da corte Macedônia e sobrinho de Aristóteles, relata que o oráculo funcionava num templo construído sobre uma rocha, denominada por ele de “acrópole”. Ao se aproximar do local, Alexandre foi recebido por sacerdotes enviados para encontrar o rei aos pés da rocha. Já no interior do templo, foi saudado pelo sumo-sacerdote de o deus Amon- em grego Amun, " o oculto"-  em Siwa, que, dirigindo-se a ele (provavelmente em grego, idioma em que não era fluente), cometeu, segundo Plutarco, um erro de pronúncia, dando a entender que o deus (Júpiter-Amon) acolhera o conquistador macedônio como seu próprio filho. Mestre da propaganda, Alexandre usaria mais tarde o caso como “prova divina” de sua predestinação para governar o Egito e unificar Ocidente e Oriente.
   Foi conduzido ao cella (santuário) do templo, onde estava guardado seu barco sagrado. Depois de passado algum tempo, retornou para juntar-se aos seus amigos, que lhe perguntaram sobre o que havia acontecido e quais eram as respostas do oráculo.  O soberano respondeu apenas que tudo havia ocorrido de acordo com suas melhores expectativas. Ele manteve as consultas em segredo absoluto, e ao escrever posteriormente para sua mãe, Olímpia, contou ter recebido certas respostas confidenciais do oráculo, que iria comunicar só a ela, pessoalmente, quando voltasse à Macedônia. Mas, depois de visitar Siwa, Alexandre prosseguiu com suas campanhas para conquistar a Ásia e não viveu para reencontrar-se com a mãe. Morreu oito anos mais tarde levando o segredo com ele para a tumba.”


Alexandria   
    Em 332 a.c. Alexandre fundou Alexandria. Após a morte do conquistador, a cidade viria a converter-se num dos grandes focos culturais da antiguidade, pois lá foi criada  a maior biblioteca do mundo fundada pelo general e amigo de Alexandre, Ptolomeu I. Essa biblioteca possuía milhares de exemplares, o que atraiu um grande número de pensadores e tornou-se um reduto de alquimista.
   Alexandre "o Grande" foi quem teria disseminado a alquimia durante suas conquistas aos povos Bizantinos e posteriormente aos Árabes.


Os confrontos se sucederam.
   Depois de submeter a Mesopotâmia, Alexandre enfrentou novamente Dario na batalha de Gaugamela (331), cujo resultado determinou a queda definitiva da Pérsia em poder dos macedônios.  Dario, que fugiu da batalha, como da vez anterior,  foi assassinado pelos próprios persas ( 330). 
   Em região remota e montanhosa, Persépolis era a sede do governo persa apenas na primavera. O império aquemênida era efetivamente administrado em Susa, na Babilônia, ou em Ecbatana. Isso explica por que os gregos não conheciam Persépolis até a invasão de Alexandre o Grande, que,  no ano 330 a.C., incendiou o palácio de Xerxes. Provavelmente isso ocorreu porque a cidade mergulhou numa profunda desordem com os saques realizados pelos seus comandados. Alexandre o Grande foi proclamado rei da Ásia e sucessor da dinastia persa. Seu processo de orientalização se acentuou com o uso do selo de Dario, da tiara persa e do cerimonial teocrático da corte oriental. A tendência à fusão das duas culturas gerou desconfianças entre seus lugares-tenentes macedônios e gregos, que temiam um excessivo afastamento dos ideais helênicos por parte de seu monarca.
   Alexandre descobriu uma conspiração para matá-lo e executou o general Filotas, filho de Parmênion, velho oficial de seu pai Felipe que também é morto.
  Durante uma festa, o oficial Clito, o Negro, que salvara Alexandre várias vezes durante batalhas e serviu a Filipe II, questionou as atitudes orientalizantes e também alegou que Alexandre tudo devia ao seu pai Filipe. Num momento de ira, Alexandre, ofendido e bêbado, empurrou os outros oficiais na sua frente e matou o amigo. Quando finalmente tomou consciência de seu ato, o grande conquistador se arrependeu e considerou aquela perda como o maior erro de sua vida.
   Em 329 a.C. aconteceu a conquista da Samarcanda, da Bactriana, da Sogdiana (região onde hoje é o Afeganistão e oTurquistão)  e a tomada de Maracanda, nos confins orientais do Império Persa. Em Bactros, Alexandre casou-se com Roxana, filha do sátrapa da Bactriana derrotado, com quem teve um filho chamado  Alexandre IV.             
   Durante a conjuração dos pajens e Alexandre mandou executar  Calistenes, sobrinho de Aristóteles, que o acompanhava como historiador.


Ruínas de Persépolis
    Nada impediu Alexandre de continuar seu projeto imperialista em direção ao Oriente, nem mesmo por sua marcha prosseguir por uma região bem desconhecida dos gregos. Para isso, entrou em ação na campanha o grupo de seu estado-maior guarnecido de cientistas, historiadores, cartógrafos, engenheiros e médicos militares.
    Em 326 a.c,, dirigiu suas tropas para a longínqua Índia, na qual fundou colônias militares e cidades, entre as quais Nicéia e Bucéfala - esta erigida em memória de seu famoso cavalo morto durante o combate contra o rei Poros às margens do rio Hidaspe. Como o rei indiano se rendeu, Alexandre o tratou com respeito e o tornou aliado. 
    Os macedônios prosseguiram com sua jornada e tiveram o desprazer de se deparar com crocodilos nadando no rio e naquela época só se tinha conhecimento desse “grande lagarto” no rio Nilo... Será que então não foi fácil acreditar, erroneamente, que haviam encontrado a nascente do famoso rio egípcio? O derretimento da neve das gigantescas montanhas, que desce tanto pelo rio Indo quanto pelo Hidaspe explicaria as inundações anuais das terras egípcias? Para tirar a dúvida, ordenou que seu almirante Nearcos construísse imediatamente uma frota apropriada para uma expedição, enquanto prosseguia com o restante na sua conquista ao mundo desconhecido.
  A chuva dos trópicos havia começado, as matas emaranhadas, antes secas, transformaram-se em terríveis florestas lamacentas: já não podiam mais acender fogo, secar a roupa tão desgastada ou cozinhar. Além disso, tinham que enfrentar os insetos sugadores de sangue, os tigres famintos, as cobras venenosas, os elefantes usados como tanques de guerra pelos adversários indianos...   
    Pouco tempo depois, ao atingir o rio Hifásis, atual Bias, suas tropas, exaustas por enfrentar a indomável natureza da região, se amotinaram. Os homens, representados pelo oficial Coinos, imploraram a volta à Macedônia.
   Alexandre, profundamente magoado, foi forçado a regressar à Pérsia, sem antes desbravar a verdadeira Índia, nas regiões do Ganges... 


Cronologia
326 - Alexandre e seu exército descem o Indo, conquistando os povos ferozes que encontram no caminho. Durante a batalha contra os Mallians, uma flecha perfurou o pulmão de Alexandre e enfureceu tanto as tropas que elas entraram na cidade, massacrando todos. Alexandre passa quatro dias à beira da morte
325 - Chegam à costa do oceano Índico.Enquanto uma parte do seu exército voltou, explorando o desconhecido mar, o grande soberano marchou ao longo da costa em direção à pátria atravessando o deserto de Gedrósia e a Carmânia. Nessa caminhada forçada milhares de seus comandados morreram.
324 - Alexandre retornou a Persépolis e a Susa. Celebra-se aí o casamento de Alexandre com Estatira ou Statira, filha de Dario. Seus oficiais e 10 mil soldados gregos casaram-se, no mesmo dia, com mulheres persas. Já na Babilonia, durante uma festa, o grande conquistador foi acometido por uma febre desconhecida que nenhum de seus médicos soube curar.
323 - Alexandre o Grande morreu na Babilônia, a 13 de junho de 323 a.C., com a idade de 33 anos. O império que com tanto esforço edificou, e que produziu a harmoniosa união do Oriente e do Ocidente, começou a desmoronar, já que só um homem com suas qualidades poderia governar território tão amplo e complexo, mescla de povos e culturas muito diferentes.
   Após a morte de Alexandre (323 a.C.), o império acabou se desagregando, pois as importantes regiões da Pérsia e da Índia reconquistaram sua independência. Entretanto, as conquistas de Alexandre contribuíram decisivamente para a helenização do Oriente. Denominamos de helenização o processo de difusão da cultura grega nas regiões conquistadas pelo império de Alexandre, promovendo a fusão de elementos da cultura clássica com a cultura oriental. O resultado desta fusão foi o surgimento de centros irradiadores da cultura helenística, como a cidade de Alexandria, no Egito, local de uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, O Farol de Alexandria. Sua biblioteca, fundada pelo general e amigo de Alexandre, Ptolomeu I,  tornou-se um dos mais importantes centros de produção cultural e constituiu, provavelmente, o maior acervo da Antiguidade, com cerca de 500 mil obras.

Tumba pode estar escondida 
  No início de 1995, a arqueóloga grega Liana Souvaltzi anunciou ter encontrado nas imediações de Siwa uma sepultura em estilo macedônio, que afirmou ser de Alexandre. A identificação teria sido possível graças a três tabletes de pedra com inscrições, achados no local. Segundo ela, um dos tabletes teria sido escrito por Ptolomeu I, homem de confiança de Alexandre, e precursor da dinastia ptolemaica no Egito, que deu origem a famosa Cleópatra VII, e confirmaria uma lenda segundo a qual o conquistador morrera envenenado. Logo em seguida, o anúncio foi desmentido por uma equipe de especialistas do governo grego, liderada pelo secretário-geral do Ministério da Cultura da Grécia, George Thomas, que visitou o local e afirmou ter dúvida até de que a estrutura escavada pela arqueóloga fosse mesmo uma tumba. Ele levantou a hipótese de que, na verdade, o monumento seria um pequeno templo. Thomas e outros integrantes da equipe oficial disseram que o estilo do complexo não era macedônio, ao contrário das alegações de Liana Souvaltzi, e acrescentaram acreditar que as ruínas eram romanas e pertenciam a um período muito posterior ao de Alexandre e Ptolomeu I.


Conclusão
  Alexandre não conseguiria tamanha façanha se não tivesse o apoio de um exército de homens devotados, especialmente o seu exército de engenheiros. Como enfrentaria exércitos superiores em número, sem a construção de catapultas e aríetes, e como calcularia o ângulo e a distância dos arremessos das balistas para atingirem os alvos com precisão? Como o rei Macedônio construiria navios para enfrentar seus inimigos vindo do mar ou explorar rios selvagens?
   Sem  a determinação dos engenheiros, Alexandre e seu exército de homens e cavalos não teriam como transpor rios largos para prosseguir sua marcha. Será que conseguiria, sem a criatividade dos soldados projetistas, que tiveram a idéia de usar sacos de couro flutuantes, cheios de ar e palha, para sustentarem troncos de madeira amarrados um no outro e assim formar balsas? Será que sem os cálculos dos engenheiros militares saberia quantos desses sacos seriam necessários para obter uma ponte suficientemente resistente para passar todo o exército com total segurança?  

(ALEXANDRE O GRANDE- CAIO ZIP - www.caiozip.com/alex.htm)

II- HUMANISMO (SEGUNDA ÉPOCA MEDIEVAL) - 1434 / 1527


     Humanismo é o nome dado a um movimento cultural iniciado no século 14, na Itália. Ele se caracteriza pelo estudo de textos gregos e latinos, transformados em modelos e fontes de inspiração.
    O Humanismo português (desenvolvido ao longo do século 15 e em parte do 16) produziu manifestação literária de vários gêneros: prosa, poesia e teatro. 
    As manifestações literárias mais significativas do período humanista em Portugal foram:
  · na historiografia - as obras de Fernão Lopes, Gomes Eanes de Azurara e Rui de Pina;
  . na poesia - as obras de João Ruiz de Castelo Branco.
  . no teatro - as obras de Gil Vicente.
    Fernão Lopes pode ser considerado o criador da historiografia em Portugal. Em 1418, foi nomeado arquivista oficial da Torre do Tombo, onde são guardados os documentos históricos do país. Em 1434, foi promovido a cronista-mor, passando a escrever a história dos reis de Portugal. Embora tivesse de centralizar a sua crônica nos reis, teve o mérito de investigar as relações sociais que movimentam o país, além de captar o sentimento coletivo do povo português. Devido ao posto que ocupava na Torre do Tombo, pôde fundamentar suas idéias com documentos escritos, o que constitui uma das bases da historiografia moderna. Suas principais obras são: Crônica de D. Pedra, Crônica de D. Fernando e Crônica de D. João I.

Crônica histórica

 Fernão Lopes, considerado o introdutor da historiografia em Portugal, é o principal representante do gênero. Sua obra contém ironia e crítica à sociedade portuguesa. Mesmo centralizando sua crônica nas ações da família real, Fernão Lopes também investigou as relações entre outras classes sociais e captou o sentimento coletivo da nação. Seu maior mérito foi conciliar pesquisa histórica e qualidade literária. 



Poesia palaciana

   Essa poesia trata de assuntos da vida palaciana e reproduz a visão de mundo dos nobres e fidalgos que a produziam. O amor é tratado de forma mais sensual e a mulher já não é tão idealizada quanto no trovadorismo.

  Leia, a seguir, um poema de João Ruiz de Castelo Branco e observe como está carregado de lirismo, numa linguagem que mostra uma evolução em relação ao trovadorismo.

        Cantiga  partindo-se

 Senhora, partem tão tristes meus olhos 'por vós, meu bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém.


 Tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos, da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida.
 Partem tão tristes os tristes, tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém.


Teatro popular

   Pai do teatro português, Gil Vicente também foi músico, ator e encenador. Sua obra trata de muitos temas, sempre com uma abordagem caracterizada pela transição entre a Idade Média e o Renascimento. Ou seja: do pensamento teocêntrico (marcado por elementos de religião, como céu e inferno) ao humanista (marcado pelo antropocentrismo e racionalismo).

 Gil Vicente
     Gil Vicente (c. 1465 — c. 1536?) é geralmente considerado o primeiro grandedramaturgo português, além de poeta de renome. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano - partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina.
    Há quem o identifique com o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom ManuelA obra vicentina é tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Foi, o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa.

Local e data de nascimento
  Apesar de se considerar que a data mais provável para o seu nascimento tenha sido em 1466 — hipótese defendida, entre outros, por Queirós Veloso — há ainda quem proponha as datas de1460 (Braamcamp Freire) ou entre 1470 e 1475 (Brito Rebelo). Se nos basearmos nas informações veiculadas na própria obra do autor, encontraremos contradições. O Velho da Horta, a Floresta de Enganos ou o Auto da Festa, indicam 14521470 e antes de 1467, respectivamente. Desde 1965, quando decorreram festividades oficiais comemorativas do casteleiro do nascimento do dramaturgo, que se aceita 1465 de forma quase unânime.
Frei Pedro de Poiares localizava o seu nascimento em Barcelos, mas as hipóteses de assim ter sido são poucas. Pires de Lima propôs Guimarães para sua terra natal - hipótese essa que estaria de acordo com a identificação do dramaturgo com o ourives, já que a cidade de Guimarães foi durante muito tempo berço privilegiado de joalheiros. O povo de Guimarães orgulha-se desta hipótese, como se pode verificar, por exemplo, na designação dada a uma das escolas do Concelho (em Urgeses), que homenageia o autor.
    Lisboa é também muitas vezes defendida como o local certo. Outros, porém, indicam as Beiraspara local de nascimento - de facto, verificam-se várias referências a esta área geográfica de Portugal, seja na toponímia como pela forma de falar das personagens. José Alberto Lopes da Silva[1] assinala que não há na obra vicentina referências a Barcelos nem a Guimarães, mas sim dezenas de elementos relacionados com as Beiras. Há obras inteiras, personagens, caracteres, linguagem. O conhecimento que o autor mostra desta região do país não era fácil de obter se tivesse nascido no norte e vivido a maior parte da sua vida em Évora e Lisboa.

Poeta-ourives?
   Cada livro publicado sobre Gil Vicente é, quase sempre, defensor de uma qualquer tese que identifique ou não o autor ao ourives. A favor desta hipótese existe o facto de o dramaturgo usar com propriedade termos técnicos de ourivesaria na sua obra.
Alguns intelectuais portugueses polemizaram sobre o assunto. Camilo Castelo Branco escreveu, em 1881, o documento "Gil Vicente, Embargos à fantasia do Sr. Teófilo Braga" - este último defendia uma só pessoa para o ourives e para o poeta, enquanto que Camilo defendia duas pessoas distintas. Teófilo Braga mudaria de opinião depois de um estudo de Sanches de Baena que mostrava a genealogia distinta de dois indivíduos de nome Gil Vicente, apesar de Brito Rebelo ter conseguido comprovar a inconsistência histórica destas duas genealogias, utilizando documentos da Torre do Tombo. Lopes da Silva, na obra citada, avança uma dezena de argumentos para provar que Gil Vicente era ourives quando escreveu a sua primeira obra, uma imitação do Auto del Repelón, de Juan del Encina a quem pede emprestada não só a história, mas também as personagens com o seu respectivo idioma, o saiaguês.

Dados biográficos
    Apesar de se considerar que a data mais provável para o seu nascimento tenha sido em 1466, Sabe-se que casou com Branca Bezerra, de quem nasceram Gaspar Vicente(que morreu em 1519) e Belchior Vicente(nascido em 1505). Depois de enviuvar, casou com Melícia Rodrigues de quem teve Paula Vicente (1519-1576), Luís Vicente (que organizou a compilação das suas obras) e Valéria Borges. Presume-se que tenha estudado em Salamanca, Espanha..
   O seu primeiro trabalho conhecido, a peça em castelhano Auto da Visitação, também conhecido como Monólogo do Vaqueiro, foi representada nos aposentos da rainha D. Maria, consorte deDom Manuel, para celebrar o nascimento do príncipe (o futuro D. João III) - sendo esta representação considerada como o marco de partida da história do teatro português. Ocorreu isto na noite de 8 de Junho de 1502, com a presença, além do rei e da rainha, de Dona Leonor, viúva de D. João II e D. Beatriz, mãe do rei.
   Tornou-se, então, responsável pela organização dos eventos palacianos. Dona Leonor pediu ao dramaturgo a repetição da peça pelas matinas de Natal, mas o autor, considerando que a ocasião pedia outro tratamento, escreveu o Auto Pastoril Castelhano. De facto, o Auto da Visitação tem elementos claramente inspirados na "adoração dos pastores", de acordo com os relatos do nascimento de Cristo. A encenação incluía um ofertório de prendas simples e rústicas, comoqueijos, ao futuro rei, ao qual se pressagiavam grandes feitos. Gil Vicente que, além de ter escrito a peça, também a encenou e representou, usou, contudo, o quadro religioso natalício numa perspectiva profana. Perante o interesse de Dona Leonor, que se tornou a sua grande protectora nos anos seguintes, Gil Vicente teve a noção de que o seu talento lhe permitiria mais do que adaptar simplesmente a peça para ocasiões diversas, ainda que semelhantes.
    Se foi realmente ourives, terminou a sua obra-prima nesta arte - a Custódia de Belém - feita para oMosteiro dos Jerónimos, em 1506, produzida com o primeiro ouro vindo de Moçambique. Três anos depois, este mesmo ourives tornou-se vedor do património de ourivesaria no Convento de Cristo, em Tomar, Nossa Senhora de Belém e no Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa.
    Consegue-se ainda apurar algumas datas em relação a esta personagem que tanto pode ser una como múltipla: em 1511 é nomeado vassalo de el-Rei e, um ano depois, sabe-se que era representante da bandeira dos ourives na "Casa dos Vinte e Quatro". Em 1513, o mestre da balança da Casa da Moeda, também de nome de Gil Vicente (se é o mesmo ou não, como já se disse, não se sabe), foi eleito pelos outros mestres para os representar junto à vereação de Lisboa.
   Será ele que dirigirá os festejos em honra de Dona Leonor, a terceira mulher de Dom Manuel, no ano de 1520, um ano antes de passar a servir Dom João III, conseguindo o prestígio do qual se valeria para se permitir a satirizar o clero e a nobreza nas suas obras ou mesmo para se dirigir ao monarca criticando as suas opções. Foi o que fez em 1531, através de uma carta ao rei onde defende os cristãos-novos.
Morreu em lugar desconhecido, talvez em 1536 porque é a partir desta data que se deixa de encontrar qualquer referência ao seu nome nos documentos da época, além de ter deixado de escrever a partir desta data.

O Teatro português antes de Gil Vicente
    O teatro português não nasceu com Gil Vicente. Esse mito, criado por vários autores de renome, como Garcia de Resende, na sua Miscelânia, ou o seu próprio filho, Luís Vicente, por ocasião da primeira edição da "Compilação" da obra completa do pai, poderá justificar-se pela importância inegável do autor no contexto literário peninsular, mas não é de todo verdadeiro já que existiam manifestações teatrais antes da noite de 7 para 8 de Junho de 1502, data da primeira representação do "Auto do vaqueiro" ou "Auto da visitação", nos aposentos da rainha.
  Já no reinado de Sancho I, os dois actores mais antigos portugueses, Bonamis e Acompaniado, realizaram um espectáculo de "arremedilho", tendo sido pagos pelo rei com uma doação de terras. O arcebispo de Braga, Dom Frei Telo, refere-se, num documento de 1281, a representações litúrgicas por ocasião das principais festividades católicas. Em 1451, o casamento da infanta Dona Leonor com o imperador Frederico III da Alemanha foi acompanhado também de representações teatrais.
   Segundo as crónicas portuguesas de Fernão LopesZuraraRui de Pina ou Garcia de Resende, também nas cortes de D. João ID. Afonso V e D.João II, se faziam encenações espectaculares.Rui de Pina refere-se, por exemplo, a um "momo", em que Dom João II participou pessoalmente, fazendo o papel de "Cavaleiro do Cisne", num cenário de ondas agitadas (formadas com panos), numa frota de naus que causou espanto entrando sala adentro acompanhado do som de trombetas, atabales, artilharia e música executada por menestréis, além de uma tripulação atarefada de actores vestidos de forma espectacular.
Contudo, pouco resta dos textos dramáticos pré-vicentinos. Além das éclogas dialogadas de Bernardim RibeiroCristóvão Falcão e Sá de MirandaAndré Dias publicou em 1435 um "Pranto de Santa Maria" considerado um esboço razoável de um drama litúrgico.
     No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende existem alguns textos também significativos, como o Entremez do Anjo (assim designado porTeófilo Braga), de D. Francisco de Portugal, Conde de Vimioso, ou as trovas de Anrique da Mota (ou Farsa do alfaiate, segundo Leite de Vasconcelos) dedicados a temas e personagens chocarreiros como "um clérigo sobre uma pipa de vinho que se lhe foi pelo chão", entre outros episódios divertidos.
É provável que Gil Vicente tenha assistido algumas destas representações. Viria, contudo, sem qualquer dúvida, a superá-las em mestria e em profundidade, tal como diria Marcelino Menéndez Pelayo ao considerá-lo a "figura mais importante dos primitivos dramaturgos peninsulares", chegando mesmo a dizer que não havia "quem o excedesse na Europa do seu tempo".

Características principais
    A sua obra vem no seguimento do teatro ibérico popular e religioso que já se fazia, ainda que de forma menos profunda. Os temas pastoris, presentes na escrita de Juan del Encina vão influenciar fortemente a sua primeira fase de produção teatral e permanecerão esporadicamente na sua obra posterior, de maior diversidade temática e sofisticação de meios. De facto, a sua obra tem uma vasta diversidade de formas: oauto pastoril, a alegoria religiosa, narrativas bíblicas, farsas episódicas e autos narrativos.
    O seu filho, Luís Vicente, na primeira compilação de todas as suas obras, classificou-as em autos e mistérios (de carácter sagrado e devocional) e em farsascomédias e tragicomédias (de carácter profano). Contudo, qualquer classificação é redutora - de facto, basta pensar na Trilogia das Barcas para se verificar como elementos da farsa (as personagens que vão aparecendo, há pouco saídas deste mundo) se misturam com elementos alegóricos religiosos e místicos (o Bem e o Mal).
   Gil Vicente retratou, com refinada comicidade, a sociedade portuguesa do século XVI, demonstrando uma capacidade acutilante de observação ao traçar o perfil psicológico das personagens. Crítico severo dos costumes, de acordo com a máxima que seria ditada por Molière("Ridendo castigat mores" - rindo se castigam os costumes), Gil Vicente é também um dos mais importantes autores satíricos da língua portuguesa. Em 44 peças, usa grande quantidade de personagens extraídos do espectro social português da altura. É comum a presença de marinheiros, ciganos, camponeses, fadas e demônios e de referências – sempre com um lirismo nato – a dialetos e linguagens populares.
   Entre suas obras estão Auto Pastoril Castelhano" (1502) e Auto dos Reis Magos (1503), escritas para celebração natalina. Dentro deste contexto insere-se ainda o Auto da Sibila Cassandra(1513), que, embora até muito recentemente tenha sido visto como um prenúncio dos os ideais renascentistas em Portugal, retoma uma narrativa já presente na General Estória de Afonso X. Sua obra-prima é a trilogia de sátiras Auto da Barca do Inferno (1516), Auto da Barca do Purgatório (1518) e Auto da Barca da Glória (1519). Em 1523 escreve a Farsa de Inês Pereira.
   São geralmente apontados, como aspectos positivos das suas peças, a imaginação e originalidade evidenciadas; o sentido dramático e o conhecimento dos aspectos relacionados com a problemática do teatro.
Alguns autores consideram que a sua espontaneidade, ainda que reflectindo de forma eficaz os sentimentos colectivos e exprimindo a realidade criticável da sociedade a que pertencia, perde em reflexão e em requinte. De facto, a sua forma de exprimir é simples, chã e directa, sem grandes floreados poéticos.
   Acima de tudo, o autor exprime-se de forma inspirada, dionisíaca, nem sempre obedecendo a princípios estéticos e artísticos de equilíbrio. É também versátil nas suas manifestações: se, por um lado, parece ser uma alma rebelde, temerária, impiedosa no que toca em demonstrar os vícios dos outros, quase da mesma forma que se esperaria de um inconsciente e tolo bobo da corte, por outro lado, mostra-se dócil, humano e ternurento na sua poesia de cariz religioso e quando se trata de defender aqueles a quem a sociedade maltrata.
   O seu lirismo religioso, de raiz medieval e que demonstra influências das Cantigas de Santa Mariaestá bem presente, por exemplo, no Auto de Mofina Mendes, na cena da Anunciação, ou numa oração dita por Santo Agostinho no Auto da Alma. Por essa razão é, por vezes, designado por "poeta da Virgem".
   O seu lirismo patriótico presente em "Exortação da Guerra", Auto da fama ou Cortes de Júpiter, não se limita a glorificar, em estilo épico e orgulhoso, a nacionalidade: de facto, é crítico e eticamente preocupado, principalmente no que diz respeito aos vícios nascidos da nova realidade económica, decorrente do comércio com o Oriente (Auto da Índia). O lirismo amoroso, por outro lado, consegue aliar algumerotismo e alguma brejeirice com influências mais eruditas (Petrarca, por exemplo).

Elementos filosóficos na obra vicentina
   A obra de Gil Vicente transmite uma visão do mundo que se assemelha e se posiciona como uma perspectiva pessoal do Platonismo: existem dois mundos - o Mundo Primeiro, da serenidade e do amor divino, que leva à paz interior, ao sossego e a uma "resplandecente glória", como dá conta sua carta a D. João III; e o Mundo Segundo, aquele que retrata nas suas farsas: um mundo "todo ele falso", cheio de "canseiras", de desordem sem remédio, "sem firmeza certa". Estes dois mundos reflectem-se em temas diversos da sua obra: por um lado, o mundo dos defeitos humanos e das caricaturas, servidos sem grande preocupação de verosimilhança ou de rigor histórico.
   Muitos autores criticam em Gil Vicente os anacronismos e as falhas na narrativa (aquilo a que chamaríamos hoje de "gaffes"), mas, para alguém que considerava o mundo retratado como pleno de falsidades, essas seriam apenas mais algumas, sem importância e sem dano para a mensagem que se pretendia transmitir. Por outro lado, o autor valoriza os elementos míticos e simbólicos religiosos do Natal: a figura da Virgem Mãe, do Deus Menino, da noite natalícia, demonstrando aí um zelo lírico e uma vontade de harmonia e de pureza artística que não existe nas suas mais conhecidas obras de crítica social.
   Sem as características do maniqueísmo que tantas vezes se constatam nas peças teatrais de quem defende uma tal visão do Mundo, há, realmente, a presença de um forte contraste nos elementos cénicos usados por Gil Vicente: a luz contra a sombra, não numa luta feroz, mas em convivência quase amigável. A noite de natal torna-se também aqui a imagem perfeita que resume a concepção cósmica de Gil Vicente: as grandes trevas emolduram a glória divina da maternidade, do nascimento, do perdão, da serenidade e da boa vontade - mas sem a escuridão, que seria da claridade?

Legado
    Tão importante foi o trabalho de Gil Vicente que Erasmo de Roterdão, filósofo holandês, estudara o idioma português para assim poder apreciar sua obra no original. Seu estilo deu origem à escola de Gil Vicente, ou escola popular, tendo por modelo as coisas simples do povo.
    Note-se que a obra de Gil Vicente não se resume ao teatro, estendendo-se também à poesia. Podemos citar vários vilancetes e cantigas, ainda influenciadas pelo estilo palaciano e temas dos trovadores.
    Vários compositores trabalharam poemas de Gil Vicente na forma de lied (principalmente algumas traduções para o alemão, feitas por Emanuel von Geibel), como Max Bruch ou Robert Schumann, o que demonstra o carácter universal da sua obra. Os seus filhos, Paula e Luís Vicente, foram os responsáveis pela primeira edição das suas obras completas. Em 1586, sai à estampa uma segunda edição, com muitas passagens censuradas pela Inquisição. Só no século XIX se faria a redescoberta do autor, com a terceira edição de 1834, emHamburgo, levada a cabo por Barreto Feio.


(Gil Vicente – Wikipédia, a enciclopédia livre _ pt.wikipedia.org/wiki/Gil_Vicente)