SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A 3ª GERAÇÃO MODERNISTA - GERAÇÃO DE 1945: CLARICE LISPECTOR

2.CLARICE  LISPECTOR



(1925-1977) Nascida na Ucrânia, veio ara o Brasil com dois meses de idade, vivendo até os 12 anos no Nordeste. Desde pequena lia muito, interessando-se por autores nacionais e estrangeiro. Formou-se em Direito e trabalhou como jornalista. Casou-se com um colega e morou em diversos países estrangeiros, devido à profissão do marido, do qual se separou em 1950, voltando pra o Brasil. Continuou a escrever sempre, além de fazer traduções e crônicas para jornais e revistas, a fim de sobreviver.
É considerada uma das maiores cronistas do Brasil e, estilisticamente, está no primeiro plano dos escritores Brasileiros. Ela mesma nunca soube explicar seu processo de criação. Dizia-se mais uma “sentidora” do que uma escritora.De feto, as histórias de Clarice raramente têm um enredo (começo meio e fim). Por isso, seus livros, mais do que histórias, contêm impressões.
Seus romances são introspectivos (voltam-se para o íntimo de seus personagens), sem se preocupar com o enredo, mas com o seu EU. A linguagem contém como que uma armadilha enganosa. Como sua narrativa segue o fluxo da consciência, importa é contar a vivencia interior dos personagens e a complexidade de seu aspecto psicológico. Cria figuras insólitas e altamente poéticas, pelas observações em linguagem dissertativa pelo narrador , que se intromete e julga comportamentos das personagens ou justifica seus atos.
Obras:
ESCRITOS NO EXTERIOR: O LUSTRE, A CIDADE SITIADA, A MAÇÃ, NO ESCURO, LAÇOS DE FAMÍLIA. INFANTIS: O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE, A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, A VIIDA ÍNTIMA DE LAURA, QUASE VERDADE.
NO BRASIL: A HORA DA ESTRELA, A LEGIÃ ESTRANGEIRA, A PAIXÃO SEGUNDO G.H., UM SOPRO DE VIDA, FELICIDADE CLANDESTINA, UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES, ÁGUA VIVA, IMITAÇÃO DA ROSA, A VIA-CRUCIS DO CORPO, ONDE ESTIVESTE DE NOITE, O OVO E A GALINHA. 

                                    A  HORA  DA  ESTRELA
    É um dos romances mais conhecidos de Clarice Lispector. Trata-se de uma narrativa que vai se construindo pelo entrelaçamento de 3 histórias:
    • A história de Rodrigo S. M. - um escritor' em crise que se questiona sobre sua profis-são, seu estilo, e se propõe a mudar seu modo de escrever. Resolve escrever uma história tendo por personagem uma pobre moça nordestina, MACABÉA, que vai para o Rio de Janei-ro. RodrIgo , será, portanto, o escritor-narrador da história de Macabéa.
A história da narração: O escritor Rodrigo vai dialogando com o futuro leitor para expor o seu processo criador, mostrando, passo a passo, como está costruindo a sua história sobre Macabéa. Portanto, é a história de como está escrevendo uma história.
A história de MACABÉA - É a história de uma pobre moça alagoana que, sem ter nin-guém na vida, muda-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha corno datilógrafa num escritório do qual está sendo mandada embora, por incompetência. Mora num quarto compartilhado por mais quatro moças, leva uma vida sem expressão, incolor, sem objetivos e horizontes. Seu primeiro e único namorado, Olímpico de Jesus, troca-a por uma colega de escritório. Macabéa vai consultar uma cartomante que, com pena dela, prediz-lhe um futuro melhor: namorado, emprego e muito dinheiro. Macabéa sai de lá feliz, esperançosa e, quando vai atravessar a rua, é mortalmente atropelada. É essa a sua “ hora da estrela”, seus 15 minutos de fama numa notícia de jornal ou canal de televisão.

MODERNISMO - A OBRA DE CLARICE LISPECTOR
    Em 1942, Clarice Lispector começou a escrever seu primeiro romance, Perto do coração selvagem e o publicou em 1943.

O romance introspectivo

     Esse primeiro romance fez certo alarde entre os críticos brasileiros. Alguns acharam a obra intolerável e estranha; diziam que "essa escritora de nome esquisito" queria se exibir. Outros, como Antonio Cândido, apesar de não verem na obra a perfeição, reconheceram a coragem dessa escritora desconhecida em usar nossa língua para criar frases introspectivas originais, metáforas extravagantes e enredos muito diferentes dos que os romancistas regionalistas (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramo, José Lins do Rego) criavam na época, cujas obras engajadas politicamente todos gostavam.
    Clarice estava introduzindo na literatura brasileira um novo modo de narrar, semelhante ao das escritoras de língua inglesa Katherine Mansfield e Virginia Woolf: o romance introspectivo, cujo enredo (a história) importa bem menos que o "mergulho" do narrador no fluxo de pensamento do personagem.
Esse mergulho é tão abrupto que o leitor depara-se com ele sem aviso do narrador. Joana, sua primeira protagonista, aparece no romance já capturada em meio a seus pensamentos. Veja os dois parágrafos iniciais de Perto do coração selvagem:
    A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.
    Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.

Um modo diferente de narrar

    Percebe-se que o narrador captura o pensamento da personagem (que não se sabe ainda chamar-se Joana) e mostra isso através do discurso indireto livre. Tal estratégia de criar não foi inventada por Clarice Lispector, mas ela a usou como aspecto central de seu estilo em todas as suas obras.
Nota-se também que a máquina de escrever é "do papai", portanto, logo de início, é a filha que tem seus pensamentos revelados - em total intimidade, pois ela está pensando apenas. Essa menina vai olhar com piedade para as galinhas "que não sabiam que iam morrer" e pensa nas minhocas que essas galinhas iam comer. Ou seja, nada é dito por Joana, para ninguém. É o narrador que a captura, e por isso cria um monólogo interior.
    E nota-se as onomatopéias usadas (tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz). Não era habitual na literatura vigente usar esses recursos.
Além disso a escritora cria suas metáforas: "uma orelha grande, cor-de-rosa e morta". O que será isso? O que ela quer dizer? Não se sabe ao certo, mas a essas construções esquisitas Antonio Candido deu o nome de "metáforas insólitas", ou seja, metáforas muito inesperadas e bastante originais.
Toda a obra posterior de Clarice (contos e romances) "persegue" esse modo de narrar. A partir de 1960, depois de escrever mais alguns romances, Clarice volta ao Rio de Janeiro e consolida sua grande carreira de contista.
  Quando mudou-se para Nápoles, começou a escrever outro romance, O Lustre, publicado em 1946.
  Em 1949, foi publicado outro romance, A Cidade Sitiada, cujos personagens são mais corpos que consciência, mais objetos que suspeitos, o mal aparece e se faz presente. Depois, foi publicado, um livro de contos chamado Alguns Contos, no ano de 1952.
 No ano de 1960, foi publicado Laços de Família, livro de literatura brasileira absolutamente renovado, que também atingiu o mais alto patamar da arte da escrita ficcional.
  Em 1961, foi publicado A maçã no escuro, um romance.
 Em 1964 foi publicado o livro de contos A Legião estrangeira e o romance A paixão segundo G. H..
 No ano de 1967 recebeu o prêmio Calunga, da Campanha Nacional de Criança, pela publicação de O Mistério do Coelho Pensante, publicado no mesmo ano.
 Em 1969, foi publicado Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um romance, e A mulher que matou os peixes, um livro infantil.
 Foram publicados também Água Viva, em 1973, onde Lispector leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrico, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. Ainda em 73, teve publicação A vida íntima da Laura, um livro infantil.
 Entre 1974 e 1977, foram publicados A via-crucis do corpoOnde estiveste de noiteDe corpo inteiro, um livro de entrevistas, Visão do Esplendor e o seu último livro publicado no ano de sua morte A hora da estrela, uma novela.
 Clarice Lispector tem um estilo literário inconfundível, presente em toda sua obra. A renovação da linguagem se encontra constante num grau que aproxima a prosa da poesia. Seus textos, apenas narram histórias, mas também apresentam a síntese e a força expressiva típicas da poesia. Além da linguagem, outro aspecto inovador na obra de Clarice é a visão do mundo que surge de suas histórias.
Mesmo tendo se iniciado como escritura numa época em que os romancistas brasileiros estavam voltados para a literatura regionalista ou de denúncia social, Clarice enfocou em seus textos o ser humano em suas angústias e questionamentos existenciais. Em suas narrativas, o enredo, bem como as personagens, as referências de tempo e espaço ganham novos significados: o enredo é quase sempre psicológico. O tempo e o espaço, por sua vez tem pouca influência sobre o comportamento das personagens; o tempo é psicológico e espaço é quase acidental.
  A indiscutível originalidade e a perturbadora percepção da validade presentes na obra de Lispector a tornam única dentro da literatura brasileira. É impossível ficar-se indiferente diante do texto de Clarice, pois a força da sua linguagem, a intensidade das emoções das suas personagens atingem em cheio o leitor, provocando no mínimo um incômodo estranhamento. É como se o texto convidasse o leitor à desvendá-lo e, desvendando-o, descobrisse um pouco mais do ser humano.

Autores: 2. Modernismo - A obra de Clarice Lispector - Passeiweb
www.passeiweb.com/estudos/sala_de_aula/portugues/clarice_lispector

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A 3ª GERAÇÃO MODERNISTA - GERAÇÃO DE 1945: A PROSA MODERNISTA - O PÓS-MODERNISMO: JOÃO GUIMARÃES ROSA

A  PROSA  MODERNISTA   -   O  PÓS-MODERNISMO

- Romance  introspectivo; a psicologia  dos  personagens;
- Sem  compromisso  com  a “realidade  real”;
- Conflito  do  indivíduo  com  a  sociedade;
- Realismo fantástico: fusão da realidade com a ficção;
- Prosa regionalista: o meio e o homem rural brasileiro

1.JOÃO  GUIMARÃES  ROSA

Nasceu em 1908 e faleceu em 1967. Formado em Medicina, foi médico em seu estado, Minas Gerais e, depois, diplomata em vários países. Recebeu inúmeros prêmios pelas suas obras literárias.
Seu estilo era absolutamente novo:
. Regionalismo universalista: suas obras, embora voltadas para espaços rurais, transcendem o puro regionalismo e dão à obra um caráter universal, pois são cheias de indagações metafísicas.
. Recriação da linguagem:   estiliza o linguajar sertanejo, inventando novas palavras, recriando palavras misturadas com arcaísmos, linguagem erudita, latim, grego. A sintaxe da frase é bastante original.
As obra é, sem dúvida, a mais complexa que apareceu depois de 1945. A flora e a fauna são magistralmente apresentadas e, às vezes, humanizadas, como em Conversa de Bois.
É o mundo do sertão a desfilar suas tradições, traições, ledas, coragens e aventuras.
Obras  principais:
SAGARANA – Contos e novelas regionalistas, mas de um regionalismo diferente, baseado nas pesquisas e elaboração artística da linguagem, incluindo o linguajar nacional. Entre eles se encontra o famoso A Hora e a Vez de Augusto Matraga. O próprio título do livro (sagarana) já exemplifica a revolução idiomática literária, pois saga significa lenda não escrita, propriamente o que se diz ou conta apenas.
CORPO DE BAILE – Nele o novelista leva seus processos estilíisticos às últimas consequências. É um corpo de novelas distribuídas em dois volumes.
GRANDE SERTÃO: VEREDAS -   Pode ser considerada a sua grande obra, pois ela rompe com todas as convenções, é um romance mítico, uma obra-prima para as nossas letras. Nele o autor criou uma linguagem inventiva, cheia de novas construções sintáticas, tais como “a bala beija-florou”, “os passarinhos bem-me-viam”, “os cavalos aiando gritos”.
Guimarães Rosa criou nesse romance uma galeria de personagens que habitam mundos mágicos, procurando traçar  a história do sertão de Minas.
O principal personagem é RIOBALDO, que narra a história da época em que fora jagunço e vingador de JOCA RAMIRO, sua longa travessia pelo sertão mineiro em busca da sonhada vingança contra HERMÓGENES, que havia  Joca. Também faz parte dobando DIADORIM, um jovem companheiro por quem Riobaldo tem afeição especial. Na realidade, Diadorim é Deodorina, a filha de Joca Ramiro que ingressara no bando disfarçada de homem para poder participar da caçada e vingança contra o homem que matara seu pai. Entre as angústias de Riobaldo estão o amor por Diadorim( que julga impossível, pois pensa que ela é um homem), a ânsia que sente pelo absoluto, a necessidade de explicar a razão dos acontecimentos e de uma existência que o coloca entre Deus e o Diabo, o bem e o mal, o ser  e o não ser.
Além desses personagens, temos ainda:
O  SERTÃO – Espaço físico onde decorre a ação, é usado como elemento simbólico, querendo significar o ‘subconsciente humano”
HERMÓGENES– È um jagunço-demônio, chefe do bando rival e que mata o chefe do outro bando, Joca Ramiro, ocasionando  a perseguição do bando, agora chefiado por Riobaldo, na tentativa de vingar o líder morto.
Esta obra se insere dentro da corrente denominada REALISO MÁGICO.
                        Modernismo - A obra de Guimarães Rosa

Rosa e o Modernismo

   O início da carreira literária de Guimarães Rosa aconteceu oficialmente em 1946, com a publicação do livro de contos Sagarana, ao qual se sucederam a reportagem "Com o vaqueiro Mariano", em 1952, (incluída depois em Estas Estórias), o volume de novelas Corpo de Baile e o romance Grande Sertão: Veredas, em 1956; Primeiras Estórias, em 1962, Tutaméia (Terceiras Estórias), em 1967. Em 1969, após a morte do escritor, foram publicados os contos de Estas Estórias, que ele vinha preparando antes de morrer. Em 1970, foram reunidos em Ave, Palavra, textos de diversas naturezas (crônicas, discursos etc) escritos durante toda a sua vida.
 O livro Corpo de Baile é publicado atualmente em três volumes independentes: Manuelzão e MiguilimNo Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.
   Como já visto, a obra de Guimarães Rosa tem início na terceira fase do Modernismo e se impõe como um marco na evolução da literatura brasileira. Os textos regionalistas até então costumavam abordar os problemas brasileiros de uma maneira superficial, transportando para a literatura diversos preconceitos. Nesse aspecto, além de Guimarães Rosa, são também exceções Graciliano Ramos e José Lins do Rego.
    O regionalismo de Guimarães Rosa deixa de dar ênfase à paisagem para focalizar o ser humano em conflito com o ambiente e consigo próprio. Dessa maneira, as personagens revelam tanto suas particularidades regionais como sua dimensão universal, ou seja, o que elas têm em comum com o restante da humanidade.
    A valorização da cultura sertaneja num momento histórico em que predominava um discurso desenvolvimentista coloca o escritor na contramão da literatura brasileira que, praticamente desde seu início, defendeu a modernização do país. Por trás da atitude de Guimarães Rosa está a percepção de que o progresso condenaria ao silêncio o mundo dos contadores de histórias.
    "Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narrar estórias corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens."
    É possível comparar as diferentes relações que Guimarães Rosa e Graciliano Ramos têm com suas personagens e com o ambiente que elas habitam. Graciliano Ramos aparece como uma consciência crítica, ajudando as personagens a enxergar a miséria de sua condição material e a exploração a que estão sujeitas. Guimarães Rosa tem uma relação de simpatia e identificação com as personagens e a paisagem.
   Na obra de Guimarães Rosa, as dualidades e antíteses são comuns para que o conflito do sentimento seja enfatizado. Desse modo, homem e mundo, realidade e devaneio, mundano e divino aparecem sempre em contraste e nos colocam diante de muita angústia, aridez e ceticismo; mas a poesia que perpassa tal obra nos remete a momentos do próprio mundo interior daquelas personagens que, por vezes, retratam nosso desejo de lutas, perdas e glórias.

O sertão e o mundo

   Os contos e romances escritos por João Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se sobretudo pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, unindo à sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.
   Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão, uma religiosidade quase medieval, baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo, pelo pavor, em que há até mesmo a preocupação de não invocar o demo, para que ele não "forme forma"; daí o diabo ser tratado por "o que não existe" ou "o que não é mas finge ser" e expressões semelhantes.
   Assim é o sertão de Rosa: ora particular, pequeno e próximo; ora universal e infinito, pois "o sertão é o mundo" ou, melhor ainda, "o sertão é dentro da gente". Por isso, logo na abertura de Grande sertão: veredas, o autor nos situa diante do problema:
   "O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo Jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá - fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniões... O sertão está em toda a parte."
    O sertão aparece como um lugar político e econômico, mas também como um lugar metafórico e metafísico, refletindo as perturbações interiores das personagens e seus grandes questionamentos. Mais do que um lugar no espaço, entretanto, o sertão rosiano é uma região criada na linguagem, como observou o crítico Antonio Candido.
    "Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos [...] O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte."
    Em Guimarães Rosa, os elementos próprios do sertão são apenas condutores para uma abordagem dos grandes problemas do homem. Suas estórias extraem do regional a elaboração de temas universais, revelando uma visão global da existência: indagações sobre o destino, o significado da vida e da morte, a existência ou não de Deus etc.
    As disputas de terra, a utilização de mão-de-obra escrava ou semi-escrava, as gritantes diferenças sócioeconômicas e culturais permeiam toda a obra de Rosa, contemporânea a questões sobretudo relativas a meio-ambiente e sustentabilidade. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo, narrador do romance, explica a seu entrevistador que, se ele foi conhecer as potencialidades ambientais e culturais do sertão, havia chegado tarde, pois, naquele momento, tudo já se achava em estado de degradação, em vias de desaparecimento.

Revolução na linguagem

    "A música da linguagem deve expressar o que a lógica da linguagem obriga a crer [...]. O melhor dos conteúdos de nada vale, se a linguagem não lhe faz justiça."
A maior inovação nos livros de Guimarães Rosa é a linguagem: criativa, que explora a sonoridade das palavras, incorpora a fala regional, cria termos adaptando expressões de outras línguas. Essa novidade obriga o leitor a refletir sobre o significado das palavras para compreender a nova dimensão dada a conteúdos já conhecidos.
    Sobre esse aspecto da obra de Rosa, o professor Eduardo Coutinho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esclarece: "Como tudo na vida, as formas da linguagem também envelhecem e se tornam completamente inexpressivas após uso prolongado: palavras perdem o seu significado originário, expressões se tornam obsoletas, construções sintáticas inteiras caem em desuso e são substituídas por outras. Cabe, então, ao escritor, consciente de sua missão, refletir sobre cada palavra ou construção que utiliza e fazê-la recobrar sua energia primitiva, desgastada pelo uso. Em outras palavras, ele tem que revitalizar a linguagem".
    A fala do povo é utilizada na obra de Guimarães Rosa como linguagem literária, aparecendo não só na fala do sertanejo, mas na própria voz do narrador. Assim, o autor rompe com a tradição em que o narrador escreve "certo" e as personagens falam "errado".
    "Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um estilo próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros."
    A princípio, percebe-se uma revalorização da linguagem; a seguir, a universalização do regional. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras no uso de arcaísmos, mas sim nos neologismos, na recriação, na invenção das palavras, sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos, suas expressões, suas particularidades. Com isso, as palavras recriadas ganham força e significado novos, como afirma o crítico português Oscar Lopes:
    "As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. A gente lê, por exemplo, que `o sabiá veio molhar o pio no poço, que é bom ressoador', e não fica apenas com uma admirável vocação acústica; as palavras `molhar' e `poço' descongelam-se, libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente, e perturbam como um reachado todavia surpreendente."
    O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano, podemos perceber em passagens como:
"Joãozinho Bem-Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa, e ele nesse ponto era bem-assistido, sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. Mas Teófilo Sussuarana era bronco excessivamente bronco, e caminhou para cima de Nhô Augusto. Na sua voz:
    - Êpa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez! ...
E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas, escurecida à fumaça dos tiros, com os cabras saltando e miando de maracajás, e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos.
    - O gostosura de fim-de-mundo!..."

Trânsito livre da prosa à poesia

    Guimarães Rosa aboliu as fronteiras entre prosa e poesia: seus textos são sempre em prosa, mas apresentam inúmeras características que se costumam considerar próprias da poesia, como as rimas, aliterações, eetc. É certamente reflexo disso o fato de que as duas narrativas que constituem o livro Manuelzão e Miguilim (Campo geral e Uma estória de amor) são anunciadas no índice como poemas, porque para Guimarães Rosa importa tanto o que é dito (conteúdo) quanto como é dito (forma).
    Mesmo a pontuação em seus textos não desempenha uma função ortográfica, mas estética, procurando fazer a escrita se aproximar do ritmo da fala, com travessões, reticências, exclamações, interrogações e, muitas vezes, vírgulas que separam sujeito e predicado, o que evidencia o rompimento do autor com os padrões gramaticais tradicionais, para aderir a uma estética da liberdade.
    É importante ressaltar, no entanto, ainda com Eduardo Coutinho, que criando novas formas para a língua portuguesa, Guimarães Rosa "não ultrapassa, em momento algum, as barreiras impostas pela sua estrutura".
    Trabalhador detalhista, Rosa estava atento a cada palavra que compunha suas criações e um testemunho de seu processo criativo são os inúmeros cadernos, cadernetas e diários em que anotava fragmentos de realidade que depois usaria na ficção: nomes de animais e plantas, expressões, nomes de lugares e pessoas, tudo.
    "Você conhece os meus cadernos, não conhece? Quando eu saio montado num cavalo, por Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada. Cada pássaro que voa, cada espécie, tem vôo diferente. Quero descobrir o que caracteriza o vôo de cada pássaro, em cada momento."
Todo esse trabalho com a linguagem confere mais força ao imaginário mágico criado em suas "estórias". Aproximando-se do que está além da realidade, o contista explora os mistérios do pré-consciente e dos mitos inseridos no ser humano. A linguagem – recriada – do sertão ajuda a revelar esse espaço como um espelho do mundo. Partindo da fala peculiar do sertanejo, o autor a submete a um processo de reelaboração e invenção que a leva a atingir significados absolutamente inesperados. Sem dúvida, identifica-se como matéria-prima o sertão brasileiro com sua fauna, flora, o sertanejo e sua cultura. Mas a magia que desabrocha desse espaço é o que garante a universalidade. O espaço torna-se uma extensão das personagens, que estão sob minuciosa investigação psicológica do autor.
    Vale lembrar que João Guimarães Rosa juntamente com Clarice Lispector foram dois grandes destaques da prosa na terceira fase do Modernismo. Extremamente preocupados com a elaboração da linguagem em seu grau máximo de expressão, são chamados pela crítica de romancistas instrumentalistas. Une-os ainda o caráter de sondagem psicológica que insere suas obras entre outras grandes de cunho universalista – isto é, de abordagem de temas atemporais, que refletem a alma humana. Mas as aproximações param por aí: enquanto Clarice Lispector intensificava a abordagem psicológica, afastando seus personagens de um enredo tradicional, Guimarães Rosa preocupou-se em trabalhar enredo e suspense, descobrindo o místico em acontecimentos do cotidiano.
A musicalidade na obra de Guimarães Rosa

G
“Sou precisamente um escritor que cultiva a idéia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro. Vão juntos. A música da língua deve expressar o que a lógica da língua obriga a crer”, afirmou João Guimarães Rosa, dialogando com o crítico alemão Günter Lorenz. As confissões de Rosa a Lorenz evidenciam como o escritor pensava (e sentia) a tensão dinâmica que rege a musicalidade das palavras. O que quer dizer essa musicalidade? Todos os seus significados apresentados pelo Dicionário Houaiss – “caráter, qualidade ou estado do que é musical”; “talento ou sensibilidade para criar ou executar música”; “sensibilidade para apreciar música; conhecimento musical”; “expressão do talento musical de alguém”; e “cadência harmoniosa; ritmo” (Houaiss, 2001) – se mostram oportunos para motivar uma leitura original da obra de Guimarães Rosa.
    A prosa do Corpo de Baile, ao encontrar-se tão próxima da poesia em sua essência e origem, contém uma disposição musical que transparece e faz soar sentidos inauditos. Quase desnecessário afirmar que é preciso gostar para dar um acolhimento amoroso. Gostar, verbo que vem da mesma raiz do grego geúo, quer dizer provar ou experimentar. Ler em voz alta ou silenciosamente. Circular na tríade que envolve o leitor, a leitura e o ato de ler. Musicar a obra literária na medida em que o ritmo da leitura venha trazer inevitáveis sugestões melódicas e harmônicas. Aproximar-se da sonoridade de cada palavra.
    O encadeamento, a abertura das vogais e a alternância consonantal, por si sós, são elementos que têm como propriedade dar ao leitor a musicalidade do texto. No entanto, a obra de Rosa oferece mais. Faz vibrar a celebração poética dos sons constituídos nas palavras. Sons que prescindem da apreensão representacional do mundo. Palavras que confluem “na alegria de tudo, como quando tudo era falante, no inteiro dos campos-gerais...” (Rosa, 1965, p. 67). Poética no transe de sua sagração sonora, onde o nome e a coisa nomeada se fundem. Unificam-se concomitantemente no mesmo destino cósmico a presença e o som. Consagram-se.

O papel de Guimarães Rosa na Literatura Brasileira

    Críticos como Antônio Cândido, Cavalcanti Proença e Benedito Nunes perceberam, desde as primeiras publicações de Rosa, a exuberante e inovadadora riqueza temática, linguística e estrutural das obras do escritor. Em Grande sertão: veredas, a narrativa radicalmente inovadora se estrutura como um grande diálogo resultante da entrevista concedida pelo ex-jagunço Riobaldo a um homem culto que vem de fora para saber notícias do sertão no tempo da jagunçagem, de suas guerras geradas pelas truculentas disputas de poder e terras. Trata-se de diálogo, ou monodiálogo, em que se houve apenas a voz do entrevistado, como se essa fosse a hora e a vez de um sujeito subalterno pronunciar sua versão da história.
    Do ponto de vista linguístico, Guimarães Rosa operou grandes transformações na sintaxe, na morfologia, nos usos literários em geral, tendo em vista a forma como tais padrões eram empregados até então na literatura brasileira. Além de fragmentar a linearidade das frases para, por exemplo, sugerir a descontinuidade do tempo ou da linguagem oral, ele cria neologismos ou recupera arcaísmos já esquecidos da língua portuguesa. Vale-se, ainda, de construções de palavras que implicam a aglutinação de dois ou mais idiomas no sentido de obrigar sua língua literária a dizer e significar mais do que o habitual, de criar situações inusitadas, de instituir uma espécie de princípio, de inteligibilidade universal, não apenas para sua língua, mas também para os espaços e contextos em que personagens estrangeiros conseguem interagir.

Fonte: José Vinícius Pessoa, Mestre e doutorando em Letras pela UFRJ


segunda-feira, 25 de julho de 2016

3º MOMENTO MODERNISTA - A GERAÇÃO DE 1945: POESIA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

1.CONTEXTO 
    HISTÓRICO
No ano de 1945, com o fim da ditadura de Getúlio Vargas, o início da redemocratização brasileira, convocam-se eleições gerais, os candidatos se apresentam, os partidos sã legalizados, sem exceção. Logo depois, inicia-se um novo tempo de perseguições políticas, ilegalidades, exílios.
A literatura brasileira também passa por profundas alterações, surgindo manifestações que representam muitos passos adiante e, outras, um retrocesso. O tempo, excelente crítico literário, encarrega-se da seleção.
2.CARACTERÍSTICAS
A prosa, tanto nos romances como nos contos, segue o caminho dos autores da década de 30, buscando uma literatura intimista, de sondagem psicológica, introspectiva (Clarice Lispector). Ao mesmo tempo, o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil Central.
Na poesia, ganha corpo uma geração de poetas que se opõe às conquistas e inovações modernistas de 1922. Assim é que, negando a liberdade formal, as ironias, as sátiras e outras “brincadeiras” modernistas, os poetas de 45 se dedicam a uma poesia mais equilibrada e séria, distante do que eles chamam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A preocupação primordial
É o restabelecimento da forma artística e bela, os modelos voltando a ser parnasianistas e simbolistas.
No final dos anos 40, revela-se um dos mais importantes poetas da nossa literatura, não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências modernistas anteriores: João Cabral de Melo Neto. Além dele pode-se citar Ferreira Gullar
         POESIA
JOÃO CABRAL DE
    MELO NETO

João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife (PE), em 1920. Ingressou na carreira diplomática em 1954, servindo na Espanha, França, Inglaterra, Senegal e Paraguai.
Estreou com Pedra do Sono, em 1942, seguido par O Engenheiro. Em 1969, entrou para a Academia Brasileira de Letras, eleito por unanimidade.
A poesia de João Cabral caracteriza-se pela objetividade, pois procura relatar a realidade e O dia a dia. Entretanto ela tem nuances subjetivas - ao apreender a realidade para tentar transformá-la - e, em alguns casos, toques surrealistas.
Melo Neto tem uma grande preocupação com a forma de seus poemas e com a escolha do vocabulário: a palavra deve ter um poder expressivo tão grande que, com poucas delas, se diga muito.
Seus temas: o Nordeste e seus retirantes, suas tradições, seu folclore, seus engenhos; Pernambuco, seu estado, Recife, sua cidade, o rio Capibaribe; as paisagens da Espanha, que ele compara com as paisagens nordestinas.
Versificou ainda sobre a arte de vários pintores, dentre eles a do espanhol Miró e a do pernambucano Vicente do Rego Monteiro; sobre alguns escritores (Drummond e Graciliano Ramos, por exemplo) e sobre alguns craques do futebol brasileiro.
Outras obras: Psicologia da composição, Fábula de Anfion, Antíode, O cão sem plumas, O rio, Duas águas (contém Morte e vida severina, Paisagens com figuras, Uma faca só lâmina), Quaderna, Dois parlamentos, Terceira feira, A educação pela pedra, Poesias completas, Museu de tudo, Sevilha andando.
Sua obra mais conhecida é Morte e Vida Severina (Auto de Natal pernambucano), que já foi tema de minissérie da TV Globo:
Morte e Vida Severina é um belíssimo exemplo de peça literária perfeita, em que forma, conteúdo e linguagem compõem um co junto harmonioso e indissociável. Ao abordar a injusta distribuição de riquezas que caracteriza secularmente a nossa sociedade (com particular ênfase para a questão agrária), João Cabral revira o nosso passado colonial com suas estruturas de herança medieval (concentração da riqueza, grandes propriedades, patriarcalismo, teocentrismo, etc.). Significativa é a caracterização do coronel (como latifundiário, ou remanescente do feudalismo); o "por causa de um coronel/que se chamou Zacarias / e que foi o mais antigo / senhor desta sesmaria ". Temos, assim, uma remissão às origens dos nossos problemas agrários e, mais remotamente, à lusitana lei das sesmarias de D. Fernando, em fins da Idade Média. Por isso mesmo, João Cabral segue o modelo medieval de poesia: constrói um auto (poema narrativo para ser representado, de tradição medieval, forte religiosidade e linguagem popular), com versos curtos e ritmados, que lembra a literatura de cordel.
O auto apresenta várias passagens ou cenas, etapas na longa jornada do retirante Severino, que sai em busca da vida, caminhando em direção ao mar e atravessando as regiões típicas dos estados nordestinos: o Sertão, o Agreste, a Zona da Mata, a cidade litorânea.

             JOÃO  CABRAL  DE  MELO  NETO: A  DEPURAÇÃO  DA  FORMA
    Apresenta em toda a sua obra uma preocupação constante com a estética, com a arquitetura da poesia, construindo palavra sobre palavra, como o engenheiro coloca pedra sobre pedra. É um "poeta-engenheiro, "que constrói uma poesia calculada, racional, num evidente combate ao sentimentalismo choroso. Para isso, utiliza-se de uma linguagem enxuta, concisa, elíptica, que constitui o próprio falar do sertanejo.
    A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da realidade e, em alguns casos, pela tendência ao surrealismo. No nível temático, podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações, apresentadas a seguir ..
. O Nordeste com sua gente: os retirantes, suas tradições, seu fol- clore, a herança medieval e os engenhos; de modo muito particu- lar, seu estado natal. Pernambuco,
e sua cidade, o Recife. São objeto de verificação e análise os mocambos, os cemitérios e o rio Capibaribe, que aparece, por mais de uma vez, personificado.
• A Espanha e suas paisagens, em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste brasileiro. "Sou um regionalista também na Espanha, onde me considero um sevilhano. Não há que civilizar o mundo, há que “sevilhizar” o mundo", afirma o poeta.
• A Arte e suas várias manifestações: a pintura de Miró, de Picasso e do pernambucano Vi-
cente do Rego Monteiro; a literatura de Paul Valéry, Cesário Verde, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos e Drummond; o futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia; a própria arte poétIca.           

1. "A fala a nível do sertanejo engana: as palavras dele vêm, como rebuçadas (palavras confeito, pílula), na glace de uma entonação lisa, de adocicada. Enquanto que sob ela, dura e endurece o caroço de pedra, a amêndoa pétrea, dessa árvore pedrenta (o sertanejo) incapaz de não se expressar em pedra.

2. Daí porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca e no idioma pedra se fala doloroso; o natural desse idioma fala à força. Daí também porque ele fala devagar: tem de pegar as palavras com cuidado, confeitá-las na língua, rebuçá-las; pois torna tempo todo esse trabalho."
                                                                                                           ("O sertanejo falando")

   Para João Cabral, o ato de escrever consiste num trabalho de depuração; as palavras são degustadas e selecionadas pelo seu sabor e peso, não podem boiar à toa:

"Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois joga-se fora oque boiar.             

Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco,"
                                                ("Catar feijão")

    Na obra. "O CÃO SEM PLUMAS", João Cabral de Melo Neto fala sobre o rio CAPIBARIBE, que arrasta. os detritos dos sobrados recifenses. Homem, rio, pele e lama acham-se amalgamados nesta paisagem do rio.     

"Aquele rio
era como um cão sem plumas
Nada sabia da chuva azul ,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,  
dos peixes da água,
da brisa na água . "
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama.
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril
que habita as ostras."
   ..........................
“Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a Iama
começa do rio;
onde o homem,
onde a pele
Começa da lama ;
onde começa o homem
naquele homem. "

                                 “MORTE  E  VIDA  SEVERINA”
                                                            (Auto  de  Natal  Pernambucano)

    “Morte e vida Severina”  é um belíssimo exemplo de peça literária perfeita, em que forma, conteúdo e linguagem compõem um conjunto harmonioso e indissociável. Ao abordar a injusta distribuição de riquezas que caracteriza secularmente a nossa sociedade (com particular ênfase para a questão agrária), João Cabral revira o nosso passado colonial com suas estruturas de herança medieval (concentração da riqueza, grandes propriedades, patriarcalismo, teocentrismo, etc.). Significativa é a caracterização do coronel (como latifundiário, ou remanescente do feudalismo): "por causa de um coronel/que se chamou Zacarias / e que foi o mais antigo / senhor desta sesmaria ", Temos, assim, uma remissão às origens dos nossos problemas agrários e, mais remotamente, à lusitana lei das sesmarias de D. Fernando, em fins da Idade Média. Por isso mesmo, João Cabra! segue um modelo medieval de poesia: constrói um auto (poema narrativo para ser representado, de tradição medieval, forte religiosidade e linguagem popular), com versos curtos e ritmados, que lembra a literatura de cordel.              
     O auto apresenta várias passagens ou cenas, etapas na longa jornada do retirante Severino, que sai em busca da vida; caminhando em direção ao mar e atravessando as regiões típicas dos estados nordestinos: o Sertão, o Agreste, a Zona da Mata, a cidade litorânea.

1- O retirante explica ao leitor quem é e a que vai

- O meu nome é Severino,
 não tenho outro de pia*.
 Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
 há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
 já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
 no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre   
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que  em vossa presença emigra.
  (..............................)

    Ao iniciar sua jornada, Severino já se depara com a morte (e assim será, ao longo de toda a caminhada). Observe como é abordada a questão da luta pela terra, com destaque para os métodos utilizados pelos grandes proprietários.

2- Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: Ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!"

“- A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
Dizei que eu saiba.
- A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
- E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
- Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
- E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
 - Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
- E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
- Até que não foi morrida,
irmão das almas,
essa foi morte matada,
numa emboscada.
- E o que guardava a emboscada,
irmãos das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
- Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
- E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas..
quem contra ele soltou
essa-ave-bala?
    (............................)

     Depois de atravessar o Sertão, o retirante chega à Zona da Mata e, ao ver a terra mais branda e macia com água que nunca seca, e a cana verdinha, pensa ter encontrado a vida. Porém:   

3-Assiste ao enterro de um trabalhoador do eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério.

- Essa cova em que estás,        - É uma cova grande            trabalharás uma terra
com palmos medida,                  para teu defunto parco,            da qual, além de senhor,
é a conta menor                         porém mais que no mundo       serás homem de eito* e trator.
que tiraste em vida.                   te sentirás largo.                         Trabalhando nessa terra,
- É de bom tamanho,                 - É uma cova grande   .~.          tu sozinho tudo empreitas:
nem largo nem fundo,               para tua carne pouca,        " serás semente, adubo, colheita.
é a parte que te cabe                 mas a terra dada                      Trabalharás numa terra
deste latifúndio.                         não se abre a boca.             Que também te abriga e te veste:
- Não é cova grande,            - Viverás, e para sempre,        embora com o brim do Nordeste.
é cova medida,                       na terra que aqui aforas:             Será de terra
é a terra que querias               e terás enfim tua roça.                tua derradeira camisa:
ver dividida.                          - Aí ficarás para sempre, te veste, como nunca em vida.
- É uma cova grande              livre do sol e da chuva,              - Será de terra
para teu pouco defunto          criando tuas saúvas:                 e tua melhor camisa:
mas estarás mais ancho*              - Agora trabalharás                   te veste e ninguém cobiça;
que. estavas no mundo.       só para ti, não a meias,                   (...........................)
                                            como antes em terra alheia.

       Ao chegar ao Recife, o retirante percebe que sua caminhada foi inútil, pois só encontrou a morte: “ chegando, aprendo que,/ nessa viagem que eu fazia, / sem saber desde o Sertão, / meu próprio enterro eu seguia.” Numa ponte sobre o rio Capibaribe, desesperançado, Severino pensa em suicidar-se, “sair fora da vida”. Nesse momento, ao conversar com José, mestre carpina (carpinteiro, como o José bíblico), Severino assite ao nascimento de um menino, símbolo da esperança, a explosão de uma vida, mesmo que Severina.

4- Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc.

  - De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida.
é uma criança franzina,
tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
- Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo*
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
- Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque* e setemesinha*,
mas as mãos que criam coisas
suas já se adivinha .
- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós*
contra o Agreste de cinza.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
a caatinga sem saliva.
           
5- O carpina fala com o retirante , que esteve de fora, sem tomar parte em nada

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É dificil defender,
só com palavras, a vida,
- ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-Ia desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

                                             QUESTÕES

1-(UFMG) Sobre o adjetivo severina, da expressão Morte e vida severina que intitula a peça de João Cabral de Meio Neto, todas as afirmativas estão certas, exceto:
a) Refere-se aos imigrantes nordestinos que, revoltados, lutam contra o sistema latifundiário que oprime o camponês.
B Pode ser sinônimo de vida árida, estéril, carente de bens materiais e de afetividade.
c) Designa a vida e a morte dos retirantes que a seca escorraça do sertão e o latifúndio escorraça da terra.
d) Qualifica a existência negada, a vida daqueles seres marginalizados determinada pela morte.
e) Dá nome à vida de homens anônimos, que se  repetem física e espiritualmente, sem condições concretas de mudança.

2- (FUVEST-SP) É correto afirmar que no poema dramático Morte e vida severina, de João Cabra) de Meio Neto:
a) a sucessão de frustrações vividas por Severino faz dele um exemplo típico de herói moderno, cuja tragicidade se expressa na rejeição à cultura a que pertence.
b) a cena inicial e a final dialogam de modo a indicar que, no retorno à terra de origem, o retirante estará munido das convicções religiosas que adquiriu com o mestre carpina.
c) o destino que as ciganas preveem para o recém-nascido é o mesmo que Severino já cumprira ao longo de sua vida, marcada pela seca, pela falta de trabalho e pela retirada.
d) o poeta buscou exprimir um aspecto tia vida nordestina no estilo dos autos medievais, valendo-se da retórica e da moralidade religiosa que os  caracterizavam.
e) o "auto de Natal" acaba por definir-se não exatamente num sentido religioso. mas enquanto reconhecimento da força afirmativa e renovadora que está na própria natureza.

3- (PUC-RS) "Entre a paisagem / (fluía) / de homens plantados na lama; /de casas de lama  plantadas em ilhas / coaguladas na lama; / paisagem de anfíbios / de lama e lama. / Como o rio, / aqueles homens / são como cães sem plumas. / Um cão sem plumas / é mais / que um cão saqueado; / é mais que um cão assassinado."
    As estrofes acima são exemplos do traço de ............ e de .......... que existe no poema de João Cabral de Meio Neto.
a) rebeldia, ódio pela sociedade
b) melancolia, indiferença pelo mundo
c) ternura, paixão pela existência
d) compaixão, solidariedade ao homem
e) saudade, medo do quotidiano

4- (UM-SP) Este "auto de Natal pernaMbucano, longo poema equilibrad entre rigor formal e temática, conta o roteiro de um homem do Agreste que vai em demanda do litoral e topa em cada parada com a morte, presença anônima e coletiva, até que no último pouso lhe chega a nova do nascimento de um menino, signo de que algo resiste à constante negação da existência" (Alfredo Bosi, História concisa da literaturara brasileira, p. 523): trata-se de:
   a)Pai  João.     b) Evocação do Recife.      c) Brasil-menino.     c) Morte e vida severina.

5- (PUC-RS)
"O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre."

A estrofe acima ilustra a assertiva de que a poesia de João Cabra! de Melo Neto revela um rigor ............. e a preocupação com o ......................
a) técnico - problema social
b) semântico - fazer poético
c) estilístico – ambiente regional
d) formal - momento político
e) métrico - conflito estético

Gabarito: 1) a   2) e   3) d   4) d    5) a